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Cordão da Mentira: de volta às ruas para lutar

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Através de entrevista e imagens do desfile do primeiro semestre, o vídeo apresenta a proposta política e estética do Cordão da Mentira, que volta às ruas de São Paulo no próximo 29 de setembro com o tema “Quando vai acabar o genocídio popular?”. Por Passa Palavra

 

Thiago Mendonça, Selito SD e Silvio Carneiro falam das motivações que animaram a formação do Cordão da Mentira e os desafios que envolvem a tentativa de consolidar um espaço que, ao atuar com ênfase no campo simbólico, não se deixe levar pelos clichês ou pela abordagem instrumental com que a esquerda vem tratando a questão nos últimos tempos. Por outro lado, falam da necessidade de se traçar uma linha divisória que não permita que iniciativas como esta sejam confundidas com outras recentes, que, apesar de também bradarem pela urgência de tomada das ruas, não mantêm compromissos com as causas populares. Daí o lema deste segundo desfile: “As ruas são para lutar! E quem não luta dança.” A esse respeito, eles ainda descrevem um pouco como acontece o processo criativo, que vai  desde a escolha dos temas, as composições, as parcerias com coletivos que fazem uso de diferentes linguagens, os ensaios, até o trajeto do desfile.

Acessar vídeo da entrevista no Vimeo

 

 

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Proibindo os proibidões

por em jul 29, 2012 no Blog do Coletivo Zagaia

Zona Noroeste. Pra quem não conhece a geografia da ilha de Santos, vale a pena explicar onde fica. Pois Santos é, em grande parte, um pedaço de terra cercado por água por todos os lados e dividido pelo morro em duas faces. A primeira, mais conhecida no cartão-postão: o lado rico da cidade, com a muralha de prédios e os jardins das praias. Do outro, o complexo que chamamos Zona Noroeste, território ocupado por palafitas e conjuntos habitacionais, onde habita uma comunidade abandonada pelo poder público (nordestinos e negros em grande maioria, trabalhadores do cais e nas regiões da Baixada Santista). Pois é neste lado da geografia santista (e são vicentina) que são cantados os “proibidões”, os funks que habitam o território indeterminado entre a denúncia social e a apologia ao crime contra o poder policial, por vezes em defesa de facções criminosas.

Durante os últimos dois anos, a relação entre a Zona Noroeste e os proibidões ficou conhecida nos noticiários pelo assassinato de alguns de seus principais MC´s e DJ´s. Felipe Boladão e Felipe da Silva foram os primeiros (2010); em seguida, MC Duda do Marapé (2011) e, mais recentemente, MC Primo e MC Careca (2012). Todos eles representavam a voz do Proibidão, avançando sobre o sinal permitido ao “funk das telas da Globo”. Neste estilo, ao lado dos códigos sexuais nas danças próprias aos bailes funks (ou seria liberalização do corpo aquartelado nas horas de trabalho?), os proibidões são um meio sutil para enviar mensagens para sua comunidade.

 

Na letra de MC Felipe Boladão, “A viagem”, uma espécie de oração aos amigos mortos, podemos encontrar a seguinte estrofe: “Não dou mais valor às coisas fúteis da vida/ Acho que estou aprendendo a viver/ O sofrimento educou minha mente/
E mesmo assim não consigo entender”. Este sentido de perplexidade ocupa grande parte das músicas de Felipe Boladão, assassinado ainda jovem, como muitos de sua geração acossada, seja pelo mecanismo das facções criminosas, seja pelos esquadrões da morte, seja pela polícia – considerando estas instituições como separadas oficialmente, mas reconhecendo aí algo mais “paralelo”. Talvez, a pergunta que fique seja: porque neste “Brasil moderno”, a visão que se tem é a do inferno (parafraseando outra letra de Boladão: “Mundo moderno”)? E por que encontrar no funk um veículo para expressar estas dúvidas?

Expressão do Funk

Das críticas ao Proibidão, a mais recorrente é sua apologia às facções criminosas. Daí, se pretende criar uma linha de raciocínio em nosso imaginário que justificaria as mortes de tais funkeiros, no clima de guerra que se constrói quando o assunto é o conflito entre PMs e traficantes. Não se sabe até que ponto os funkeiros estão envolvidos com este universo. De fato, em suas músicas, há descrições de assaltos e enfrentamento com os “botas”. E quando as alternativas estão entre a defesa do PCC e o silêncio, é sinal de que há algo perigoso neste discurso.

No entanto, fazer esta conexão é um modo simples de não entender as coisas. Ao lado de tais defesas, o proibidão opera suas denúncias. Neste sentido, há algo de verdadeiro na defesa complicada do “Paz, justiça e liberdade”, quando se convive durante gerações uma contabilidade de jovens mortos, quando se habita em um lugar muitas vezes abandonado, quando o signo maior da polícia é o esculacho arbitrário para instaurar uma zona de segurança através do medo.

“Rima agressiva” estava tatuada no braço do último funkeiro assassinado, MC Careca. E talvez esta marca tenha um significado mais contundente. No clima de guerra, no ambiente de exceção, a forma cultural do Funk é este modo em que a denúncia vem acompanhada da agressividade da batida, da violência das palavras de ameaça e de esperança, do sentido de um revide que está por vir, da perplexidade em não entender a aparente arbitrariedade que elimina os seus próximos. Um modo direto de enviar uma mensagem à própria realidade em que vivem.

Enquadrar esta forma como um modo simples de expressão, talvez seja deixar de lado o fato de que no interior desta simplicidade há uma possibilidade ampla de misturar discursos: letradas ou ritmadas. De um modo muito próximo ao rap, os proibidões permitem uma mescla grande: nas batidas podem ser ouvidas as rajadas de balas, como se estivessem atirando para algum lugar, dando algum aviso em meio a um Brasil ainda estranho e confuso. Tiros para o alto, como se estivessem a dar algum aviso? Talvez. Aviso que está em um dos ritmos de MC Careca e Pixote: “Vai dar Guerra”: “As favelas aumentam e com elas os sonhos”. O que fazer com este processo e suas demandas? Silenciar isto é o procedimento mais comum que encontramos na história que forma nossa sociedade. Até quando?

httpv://youtu.be/DiwC1DjvXh8

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Coletivo Zagaia e Grupo Folias apóiam Sarau do Binho

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Uma ação educativa? ou o modo ONG de encarar a vida.

“Não-governamental e além do mais sem fins lucrativos? Tão longe, portanto, do dinheiro quanto do poder?”

Paulo Arantes in Zero a Esquerda, p. 167.

 

Estas dúvidas foram levantadas há quase uma década atrás em um artigo curiosa e originalmente publicado nos Cadernos Abong, com o título “Esquerda e Direita no espelho das ONGs”. Dez  anos se passaram, e podemos dizer que esta questão ainda não se calou. Nos seminários Labirintos e Trincheiras, produzido por esta Zagaia junto ao grupo Folias, lembramos a discussão sobre o tema, levantada por Fábio Resende, da Brava Cia., sobre como o trabalho crítico dos coletivos de teatro ficam limitados perante a participação das ONGs. Afinal, como dizer para a comunidade que a mesma instituição que assopra é a que morde? Como potencializar a linguagem que circula nas quebradas, quando tudo deve estar reduzido aos processos pedagógicos da arte-educação que leva a cultura do centro para as bordas da periferia, ou que ensina a fazer arte a partir dos materiais recicláveis que o consumo de mercadorias nos deixa de herança? Na periferia, não restariam outros materiais?

 

Neste texto,  Paulo Arantes questiona se ele não estaria sendo injusto, misturando o joio e o trigo, aproximando as ONGs da “transformação social” com aquelas que seriam “espúrias e apócrifas”. Mas, hoje, uma década depois, podemos dizer que o modo ONG de encarar a vida apenas nos leva às perversões travestidas de puritanismo. Prova maior disso é o cinismo do texto “Sarau do Binho: Crônica de um Poeta sem Bar”, escrito por Antonio Eleilson Leite, cidadão “proativo”, funcionário da ONG Ação Educativa, responsável sintomaticamente pela “Agenda Cultural da Periferia”.  Sem titubear na fala mansa de quem não quer se comprometer, o autor vai, aos poucos, apresentando sua visão de mundo: o que é o Sarau? Como deveria funcionar? Do que sofrem aquelas comunidades? Quais os limites do modelo do Binho? Como uma crise pode ser lucrativa? Nestas perguntas, algo subjaz: uma linguagem tão perto do poder e tão perto do dinheiro…

 

Tão perto do poder e tão fora do contexto

Pois é na fala mansa que o personagem se cria. Na posição mediana de um (inter)mediador cultural, Eleilson procura ajustar as pontas: atar relações com o Binho, retirando dele qualquer imagem de homem fora-da-lei (o que de fato não é), ao mesmo tempo que desvaloriza todo o caráter político de apoio de diversos coletivos de cultura, considerando-os “apressados” ao considerar o fechamento do bar como um ato de criminalização da cultura de periferia pela prefeitura de Kassab. Recurso básico: dividir para conquistar. Afinal, entre os que apoiam o Binho, estariam os apressados que, num ato “paranoico”, apenas repetiriam a ladainha de que o governo Kassab está contra eles. Imaginem?! Além do Binho, outros saraus entraram na dança, por motivos variados: coincidência???

Nada mais deslocado quando se teriam políticas públicas com as quais se pode contar sempre, não é mesmo? Basta um pouco de noção de gerenciamento que o dinheiro chega até eles!!! “Será que não é possível curtir uma poesia sem assumir postura de militante cultural?”, indaga. Em contrapartida, na outra ponta, estão aqueles que querem curtir a “poesia-arte”, defendida por Eleilson, imaculada nos espaços oficiais dos Saraus: aqueles que buscam na literatura um outro espaço, em que as agruras da miséria sejam compensadas pela beleza das palavras. Deste modo, nesta oposição calculada construída cirurgicamente entre dois Binhos – o da “arte”, “pós rancor” e “amigo” da gestão Kassab e o da política, “inimigo” da gestão Kassab – resta ao leitor optar por qual lado ficar.

 

No front anti-Kassab, não se reconheceriam as “ações educativas” do prefeito. Pelo contrário, confundiriam o subprefeito “técnico” em administrar populações e seus anseios, com o passado militar dos mesmos. Antigos militares, hoje reservistas, nada teriam em comum com o seu passado. Aposentou, mudou de estatuto… é isto que os “inimigos do Kassab” confundem. O fato das subprefeituras de São Paulo serem quase em sua totalidade comandadas por militares da reserva é apenas uma escolha técnica de uma gestão contraditória. No modo ONG de encarar a vida, tudo é questão de gerenciamento: missão dada é missão cumprida. As ordens de despejo são prova de que, entre a técnica de gerenciamento das populações e a estratégia de um militar, a diferença é a farda. Ainda neste modo ONG de encarar a vida, não importa o partido, o importante é gerir a miséria e evitar os conflitos.

Militarização? Que nada!

Daí a piscadela desta nova astúcia, pois na lógica da cafetinagem do mediador cultural todo o homem está à venda e todo poeta tem seu preço. Como se dissesse de lado e baixinho: “Binho, meu amigo, não liga pra esses aí, não. Existem outras formas: tem o VAI, tem diversos editais… Esses daí, estão alucinados com a violência com a qual estão acostumados. Você pode ser exemplo: vira um ponto de cultura! Eu te ajudo.” E ele ajudaria – não se nega. Afinal, de um lado, domina o linguajar da periferia (um dia veio de lá); de outro, domina como ninguém o idioma do dinheiro. Promove ações para captar fundos, auxilia os Saraus, fica bem na fita da comunidade, e assim o modo ONG de encarar a vida segue adiante. Mediador profundo das ações sociais e dos bons costumes cidadãos, Eleilson pretende ficar de bem com a comunidade que lhe interessa e a prefeitura. “De sorte que nem sempre é fácil perceber onde termina a utopia republicana e principia um empreendimento tocado à imagem e semelhança do mundo dos negócios”, como lembra Paulo Arantes.

 

Tão perto da grana, tão longe de você

Mas, óbvio, tudo tem um custo. Mesquinho é verdade, se pensarmos que o que está em jogo é a intermediação dos orçamentos municipal, estadual e federal para a cultura. E o mais importante é que, neste pinga-pinga, a ONG se mostra peça central. As migalhas orçamentárias são distribuídas entre editais, pelos quais concorrentes disputam o seu quinhão. Especializados em projetos, instituições mediadoras tratam de vincular o processo cultural aos termos do edital (quando eles mesmos não estão por trás da redação dos termos do edital pretensamente público). Ainda que falso – um pouquinho de idealismo não fere jamais os fins não-lucrativos do empreendimento – estes mediadores combatem por verbas das mais diversas frentes (públicas e privadas) sob a condição “justa” de, no interior deste jogo, ganhar uma parcela significativa da fatia. Neste negócio, naturalmente, conta-se com trabalho voluntário (natural baratear os seus “produtos” culturais) desde que a capacidade de gerenciamento das atividades não fiquem prejudicadas e os ganhos não-lucrativos sejam repartidos por ordem hierárquica do edital. As empresas, por sua vez, concedem os valores e direcionam o andamento do projeto. Travam assim um diálogo confortável entre seus fundos orçamentários e os (inter)mediadores. Claro, o “público-alvo” beneficiário jamais participa deste diálogo, incapazes que são de dominar o riquíssimo idioma, aparecendo apenas nos eventos comemorativos para mostrar o show do populacho. Daí que, sem a variante popular no processo, ONGs mediadoras e empresários podem incentivar projetos que lhes interessam ou mesmo fechar aqueles que lhes confiram prejuízos, seja ele monetário ou simbólico. Inúmeros são os exemplos de projetos sem fundamento, que giram em falso até que a roda da fortuna lhes sorria novamente. Estratégia de gerenciamento clássica dos tempos da Arte da Guerra, livro de bolso do universo empresarial.

 

Mas este é apenas um modo de encarar a coisa. No modo ONG, mais do que captadores de recursos, é preciso ser um “captador simbólico”. Afinal, verba não é suficiente para legitimar a autoridade alfandegária dos mediadores: que lhes concedam o poder para dizer que ações valem ou não. Não basta uma Coca-Cola chegar para ajudar; é preciso um exército para convencer que o projeto é legal, produtivo e, tanto melhor, a única solução possível. Para tanto, é preciso captar “valor simbólico” e concorrer com as alternativas já existentes neste território.

 

 

A marca que elas gostam

Valor simbólico não se consegue da noite pro dia, como num assalto a banco. É preciso artimanha. Característica do texto do Eleilson: enquanto coordenador cultural de uma ONG, vale o prestígio de estar perifericamente às voltas do centro. Primeiro, como já dito, não se pode nunca enfrentar o inimigo, mas dividi-lo. Com uma parte ganha, é preciso então levar os novos “aliados” para o seu terreno, propriamente. Daí a estranha defesa do Sarau do Binho, contra o Bar do Binho (ou a defesa do Binho contra ele mesmo). Diante da alternativa simbólica de um Sarau que ocorre num bar, espaço que parece avesso ao imaginário ongueiro (embora nas noites de samba, a Ação Educativa forneça aos convivas suas biritas) parte para o ataque contra a mistura (saudável) entre bebida, literatura e música. Aliás, nada mais comum no universo boêmio e transgressor das artes; ou os antigos poetas, que Eleilson tanto idolatra, seriam apenas funcionários públicos que em suas noites de folga fugiam para seus comportados lares, onde compunham odes de enfeitar salões?

Neste ataque ao Bar do Binho, a crônica que Eleilson cria tem destino certo: o poeta no bar é um animal em extinção. Por outro lado, os saraus em ONGs, bibliotecas e outros lugares reconhecidos oficialmente são o “novo paradigma”. Muitos deles frutos dos esforços da mediação, que bebe à rodo dos editais e vomita cidadania. Tudo o que lhe é alternativo, um bar inclusive, deve ser lacrado como espaço proibido da cultura. Ali não há possibilidade de controle, mas um caos que a Arte-Educação não consegue deter. Seriam como crianças no recreio, brincando de cultura. Nada sério e comportado como mandam os editais. Daí que atacar o bar em defesa do sarau do Binho revela mais do que esperamos: a luta pelo valor simbólico que aquele local conquistou, valor que escapa das malhas cidadãs sem fins lucrativos. Diante deste fato, Eleilson quer ser o cronista de uma pretensa morte anunciada, angariando assim um valor simbólico necessário para manter seu papel de mediador cultural. Algo que confunde os bem-intencionados e aproxima os mal-intencionados…

 

Moral da crônica…

Por isso, não se trata de um jogo meramente ganancioso. Trata-se de um modo de ver o mundo. Um modo de captar valor simbólico e continuar como parasita entre os extremos, como um bom (inter)mediador deve ser. Adquirir “valor simbólico” neste lugar significa poder espalhar para os quatro cantos sua versão da crônica, emplacar nos blogues ditos progressistas como porta-voz da quebrada, ainda que silencie os processos violentos (simbólicos e físicos) contrários à pluralidade das manifestações culturais. Mas, podemos nos perguntar como Binho em um verso seu que Eleilson se esforça por esquecer: “Até quando a corda irá arrebentar do lado mais preto?”

 Tudo se passa como se possível fosse o poeta sem espaço. Um poeta da periferia sem a periferia no poeta. Um poeta sem bar. Nada mais criminoso do que alguém mais tirano do que o tirano. Nada mais miserável do que o valor simbólico que esconde sua violência. O homem do terceiro setor torna-se então o testa de ferro de setores terceiros. Neste modo ONG de encarar a vida, a única moral é o cinismo.

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O rebatismo simbólico da “Escola de Música do Estado Tom Jobim” para “Escola Livre de Música Pato N’Água”

“estou convicto de que um divisor de águas está separando, de forma crescente e indestrutível, a imaginação política democrática dos trabalhadores da empulhação sistemática dos que, até hoje, só defenderam a ditadura dissimulada ou aberta dos poderosos.”

Florestan Fernandes, A ditadura em questão

A repressão no Brasil possui diversas facetas, sendo uma das mais cruéis a alienação do patrimônio simbólico através da apropriação das tradições populares por uma elite que insiste em se dizer aliada das classes exploradas. Os grupos da elite brasileira, tanto no campo da direita como no da esquerda, sempre usufruíram deste legado e, para além disso, apoderaram-se e corromperam esta memória.

A história do samba, por exemplo, deixa de ser a história dos populares de origem negra e passa a ser a história do encontro dos negros e brancos no contexto carioca. A fábula antropológica de Hermano Vianna intitulada o Mistério do Samba, obra ícone entre os acadêmicos festivos, reduz a tradição do samba à um mitológico encontro entre Pixinguinha e Gilberto Freyre, que representaria em si a junção entre a cultura negra e a cultura modernista, representante de uma elite progressista brasileira. A fábula é tão bonita quanto falsa, mas isto pouco importa para grande parte de nossos “pensadores”,  ávidos por uma antropofagia que tem por modelo menos Macunaíma, e mais seu algoz, o gigante Venceslau Pietro Petra.

O samba nasce, se desenvolve e permanece uma tradição negra, descendente da síncopa africana (como bem explica Muniz Sodré em seu lapidar ensaio “Samba, o dono do corpo”) e tem continuidade nos terreiros, favelas e becos ocupados pelos nossos deserdados da terra. Os homens e mulheres brancos que participam da cultura samba são, na maioria das vezes, pessoas que foram rebaixadas à condição de pobreza reservada à parcela da população “de cor” (entenda-se nesta expressão racista os não brancos – negros, índios e mestiços) ou ainda uma parcela da elite que opta estética e politicamente pela cultura dos marginalizados. Não podemos confundir este extrato com os oportunistas de plantão, sempre ávidos por reproduzir a lógica da Casa Grande e Senzala, munidos das táticas e armas da indústria cultural (seja em seu modelo massificado, seja no modelo biscoito fino).

Assim como a cultura samba, a cultura de resistência e de luta contra a opressão foi simbolicamente extorquida das classes populares na reconstituição do período 1964-1984.

Jonas X Jonas

É sabido que o golpe civil-militar de 64 teve como alvo central nos seus primeiros anos as ligas camponesas, os sindicatos e os militares progressistas. Porém muitos historiadores insistem no mito de que a ditadura brava teria começado somente em 1968 com o Ato Institucional Número 5. Antes um grupo intermediário e moderado estaria no poder. Não se trata aqui de negar a substancial piora da repressão após 68. Mas de lembrar que se o AI-5 de uma forma geral representou o início da violência somente para parte dos extratos médios brasileiros politizados. Para a população pobre não foi um começo, mas um aprofundamento da brutal repressão que ocorria desde o dia Primeiro de abril de 64. O povo negro continuou e continua sofrendo as consequências do golpe militar cotidianamente. Muitas das técnicas de tortura implantadas na época ainda são comuns em nossas cadeias. Os massacres e execuções são, como sabemos, corriqueiros.

O livro Dos Filhos Deste Solo cita um total de 424 mortos políticos pelo regime militar. Parece pouco frente às 492 mortes por execução em São Paulo em Maio de 2006, consequência da reação facínora da polícia aos ataques do PCC. Mas por que não consideramos crime político nos anos 60-70 as ações do esquadrão da morte frente à população marginalizada e as políticas de “higienização” e de apoio à especulação imobiliária na cidade e no campo ao longo de toda a ditadura? Muitos milhares de mortos pelas forças de repressão não foram assassinados por suas ideias políticas, mas por sua existência indesejável frente à expansão do capital. Talvez este seja o legado mais duradouro do golpe de 1964 e o menos comentado.

O apito de Pato N´Água emudecido

 É neste contexto que lembramos a figura de Pato N’Água, diretor de bateria do cordão Vai Vai, executado pelo esquadrão da morte em 1969. O laudo pericial foi de infarto. Mas no enterro, sambistas amigos constataram a morte matada. Geraldo Filme compôs em sua homenagem um dos sambas mais bonitos de São Paulo, Silêncio no Bexiga, onde dizia: “partiu, não tem placa de bronze / Não fica na história / Sambista de rua morre sem glória / Depois de tanta alegria que ele nos deu / Assim, um fato repete de novo / Sambista de rua, artista do povo / E é mais um que foi sem dizer adeus…”.O fato repete de novo. E de novo. E sempre. Há muitos Patos N’águas morrendo cotidianamente pela lógica civil militar que insiste em não acabar. Pela idéia de ordem e limpeza (étnica, sobretudo), pelas práticas de eliminação física dos corpos que impedem o livre fluxo do capital e a explosão dos interesses imobiliários. Assim foi em Carajás, assim foi na Candelária, assim foi no Carandiru, assim foi em Corumbiara, assim é cotidianamente em São Paulo, de Pinheirinho à Cracolândia.

É dentro desta lógica que a revitalização do centro de São Paulo reaparece com a máscara da Nova Luz. A primeira medida governamental foi a eliminação violenta do comércio ambulante e dos prostíbulos e suas meninas. Depois veio a perseguição aos consumidores de crack, seguida da expulsão dos músicos da Rua do Samba, evento mensal que reunia cerca de 3 mil pessoas na rua General Osório (rua que é tradicionalmente um reduto do samba e do choro de São Paulo). Ao lado de onde acontecia o evento instalou-se a “Escola de Música do Estado Tom Jobim”, voltada não para o “samba”, mas para uma música de “nível”! O nome de Tom Jobim é apropriado neste contexto como signo da exclusão: na rua de choro e do samba paulista colocaremos uma escola que representa uma Cultura com “C maiúsculo”, parte integrante do elitizado corredor cultural formado pela Sala São Paulo, Pinacoteca, escola de dança do Estado (ainda em construção), Museu da Língua Portuguesa e, sintomaticamente, o “Museu da resistência” no antigo Deops. Como se a memória dos anos de chumbo não se fizesse presente em frente ao prédio, nas táticas militares de combate aos viciados, aos sambistas, ao comércio ambulante, às crianças pobres e às prostitutas da Boca do Lixo.

O que está presente na limpeza militarizada do centro de São Paulo são os espectros sinistros do delegado Sérgio Fleury, Wilson Richetti e Romeu Tuma. É a continuidade da lógica de massacres e humilhações e de apagamento da memória dos resistentes. Mais do que isso, a limpeza simbólica da cultura do samba na General Osório, mostra o sentido primeiro dos projetos de higienzação – a eugenização do centro.

Rebatismo simbólico para que um fato não se repita

Túmulo do Samba?

Neste contexto, o rebatismo simbólico da “Escola de Música do Estado Tom Jobim” para “Escola livre de Música Pato N’Água” tem um significado que vai muito além de uma opção musical. Significa resistir à ditadura simbólica da higienização/eugenização bossa nova ao som de um negro partido alto. Significa colorir de preto a claridade da nova luz. É tornar Jobim Antonio Carlos brasileiro. É fazer como fez Glauber no enterro de Di Cavalcanti e sacudir a poeira da institucionalização da obra do grande artista disfarçada em homenagem. E acima de tudo, rebatizar a escola é recuperar a alma do samba sempre presente na Boca do Lixo, valorizar a cultura daquele local, e levar para frente do Deops do delegado Fleury a imagem de uma de suas primeiras vítimas: o sambista Pato N’água. Os bossa-novistas que nos perdoem, mas memória é fundamental. Rebatizar simbolicamente aquilo que nos oprime não é um ato de violência contra os patrimônios culturais, mas é dar voz à imaginação política que encontra na vala de sua luta os milhares de Patos N´águas, morto pelo fato de existir como aquilo que sempre ofendeu as elites: negro, pobre, sambista e contestador.

O Coletivo Zagaia é um grupo de crítica e experimentação estética.

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Cordão da Mentira: de onde? Para onde?

Em apenas uma semana, artigos em blogs, revistas e jornais procuraram decifrar o enigma de “carnavalizar a ditadura civil-militar”. Termo difícil de compreender, dada sua natureza contraditória, associando a carne em festa e a carne torturada. E, como toda contradição, seus labirintos conduziram a cobertura midiática à simplificação dos eventos, chegando raramente ao universo mais complexo, onde o ar é rarefeito e onde os processos se iniciaram. Pois é neste ponto onde está a novidade do Cordão da Mentira, onde a estética encontra a política.

 

A cobertura simples

Há duas maneiras simplórias de se encarar o cordão, dispensando seu processo artístico-político. Duas maneiras que precisam, portanto, ser rejeitadas se o caminho é radicalizar o debate.

A primeira delas procura partir de quem são os atores, quais suas opiniões e o que eles defendem. Exemplar aqui é o relato da Folha de São Paulo (FSP), que, antes mesmo de tudo acontecer, caracteriza o ato como “universitário”. Muito embora sabendo, através de entrevista com membros da organização do Cordão, que a composição do grupo seguia além do campus, Bernardo Franco – editor chefe do caderno “Poder” da FSP – decidiu por bem caracterizá-lo como uma atividade de universitários. Não se trata, pois, de desinformação, mas de mau jornalismo, para não irmos às “vias de fato”. Ora, tratar o Cordão da Mentira como tal tem implícita uma mensagem, que acompanha as páginas deste jornal sempre quando o assunto é “manifestação universitária”: gente jovem e contestadora, geralmente da classe média que pode estudar, que adora uma baderna e outra, ocupando espaços que não deveriam ser os seus, transgredindo a ordem sempre que possível. Nenhuma conduta que a patrulha do tempo não seja capaz de corrigir. Afinal, depois, já formados, estes mesmos jovens ironizariam seus feitos, como algo distante de suas experiências, como muitos ex-guerrilheiros caracterizam suas ações do passado… Trata-se, pois, de uma estratégia que procura reduzir o Cordão a uma classe social com prazo determinado para contestação, deixando de lado outras agremiações e coletivos que participaram do processo de criação estética do Cordão.

Samba universitário???

Na verdade, o motor do Cordão tinha como combustível não um “samba universitário”, mas, principalmente, a composição de sambistas integrantes de escolas e projetos de samba, batucados por meninos e meninas regidos pelas competentes mãos de Mestre Paulo. Eis o que se deixa de lado.

 Vejam, é gente da esquerda falando isso! (Não estamos discutindo, pois, a natureza política, considerando a Carta Capital e o autor anti-PIG´s viscerais). Entretanto, o limite não está em compreender um ato como mais ou menos simbólico do que outro, mas sim, em desconsiderar o Cordão como um todo, dissolvendo a proposta estética no interior de plataformas políticas. Erro clássico das estéticas de esquerda, pois o discurso político assume um vanguardismo às avessas, calando a dialética desta produção cultural própria à diversidade de manifestações populares, como a tradição dos cordões que procuramos recuperar.

No interior desta cegueira do sensível, a armadilha se dá em dois eixos. Um menos perigoso, porém não menos presente. Sua periculosidade é menor porque, desde a Escola de Frankfurt, a esquerda sempre desconfia dos processos criativos e suas apropriações simbólicas pela indústria cultural. Não é a toa que, durante o processo de elaboração do Cordão, fomos procurados por empreendimentos dos mais estranhos, que confundem a carnavalização da ditadura civil-militar com qualquer festa onde ninguém é de ninguém. São produtores culturais, além do bem e do mal, que procuram financiar os eventos, não importando a natureza deles. Procuram intermediar os grupos com as instituições públicas, “facilitando” a realização de seus eventos. Estranhas “OS´s (organizações sociais) culturais”, que administram a cultura como administram hospitais, prisões e escolas em nossa cidade.

Lembrando nossas alianças.

Contrariando esta conduta, optamos desde o início nos afastar de tais empreendimentos, relacionando-nos com outras frentes políticas, encontrando nas próprias pernas de aliados tradicionais, métodos críticos antigos e novos. Sem sindicatos como a Conlutas, não teríamos carro de som; sem o apoio de antigos militantes comprometidos com a crítica à ditadura, caminhos ficariam mais difíceis de trilhar; sem uma juventude anárquica e descrente nasestruturas partidárias, mas não menos comprometidas com projetos estético-políticos como os do Cordão, tudo isso seria impossível; sem diversos Saraus, posses de Hip-Hop e demais coletivos periféricos seria impossível realizar o “Sarau Luis Gama” na abertura do Cordão; sem o apoio dos movimentos de Samba e das Mães de Maio, enfim, não compreenderíamos que a ditadura civil-militar não se restringe ao período descrito nos livros de história, mas faz parte do processo chamado Brasil, desde sua tenra idade escravista até a modernidade bárbara de Pinheirinho e outras chacinas.

Um segundo perigo, este pior, é não fazer perguntas primordiais: afinal, como tudo isso que representa o Cordão da Mentira foi possível? Que tipos de processo alimentaram a relação de grupos tão diversos e, por vezes, divergentes? Questões que procuram deixar de lado quem é o quê, e procura entender de onde vêm os agentes do cordão.

 

De onde?

Inverter a lógica das narrativas anteriores talvez seja a melhor maneira de compreendermos um processo como o Cordão da Mentira. Expliquemo-nos. Seja a FSP, seja a Carta Capital, bem como em artigos e vídeos publicados em outros blogs de esquerda ou direita que assumiram posições similares às suas respectivas mídias impressas, ambas assumiram a perspectiva política para compreender a manifestação do cordão. Com isso, a arena política e suas velhas formas ficam evidenciadas, tratando o evento ora como um estereótipo da esquerda festiva, ora como um meio novo para propagar antigas críticas da esquerda. Raras exceções, é possível contar nos dedos de uma só mão as publicações que se voltaram para o ambiente estético criado pelo Cordão.

Ora, o ponto de partida que possibilitou o Cordão não é a política que se utiliza da estética para seus discursos, mas a estética que segue em direção à política, providenciando uma nova sensibilidade em um corpo que se manifesta durante um longo percurso, ao som de sambas e com intervenções teatrais, orientando-se por estandartes e reabrindo um mapa esquecido da nossa memória.

Mais ainda, o ambiente do Cordão é uma estética que providencia uma horizontalidade de protagonismos raras vezes vista. Todos os grupos que participaram do processo de criação puderam se sentir representados, na medida mesma em que a base do Cordão foi, em sua maioria, realizada no mesmo plano. Os músicos tocaram seus sambas, acompanhando o cortejo no chão. O sarau, que reuniu diversos poetas das periferias ou de outras gerações de combate, aconteceu no chão. Público e Obra, todos no mesmo nível. Exceção feita às intervenções teatrais ou celebrativas, que ocuparam o espaço que podiam, estando presentes nos desvãos das ruas, no carro de som (ironizando a estética dos palanques), nas placas fixadas nos muros ou mesmo em tradicionais sedes teatrais.

Estética contra a ditadura de ontem e de hoje
Estética contra a ditadura de ontem e de hoje

Em meio a tantos coletivos, há uma estética politizante que alimenta que sustenta as ações do Cordão, tal como encontramos em sambas nada irônicos (pois é, nem todos eles o são), mas bem francos em suas mensagens, como o “Frevo da Falha”, o “Camarada Lampião” e o “Novos Porcos”; ou em manifestações mais irônicas como a marchinha “Quem torturou o Zé?” e as intervenções da Cia. Kiwi (em frente à FSP), do Engenho Teatral (no vão da USP/Maria Antonia) e a “Ópera do Bom Burguês” do Estudo de Cena (em frente ao santuário da TFP); ou em celebrações mais solenes como as placas deixadas ao longo do trajeto. Todas estas vozes puderam ser ouvidas no interior da estética performática preparada pelo Cordão. Basta saber para onde estas vozes nos levam…

 

Para onde?

Para onde?
Para onde?

Uma destas estruturas, pouco ou nada comentada por qualquer mídia, foi o desvio planejado pelos membros do Cordão da Mentira em frente à antiga sede do DOPS. Ao invés de seguir o caminho natural e dispersar o cortejo carnavalesco diante do atual Memorial da Resistência, o cordão voltou-se para a sede da antiga Escola “Tom Jobim”, atualmente (para nós) Escola Livre de Música “Pato N’Água”. Nesta deriva, havia algo de contundente. Alguns perceberam e reclamaram. Outros sequer entenderam. Poucos (geralmente mais ligados com a história do samba) compreenderam claramente a mensagem. Pato N’Água não era um militante político. Sua consciência se alimentava da trajetória dos antigos cordões, sendo um dos principais líderes da Vai-Vai. Era, portanto, representante legítimo do samba enquanto cultura de encontros e desencontros. Sua morte, entretanto, foi política. Assassinado a tiros pelo esquadrão de morte do Dr. Fleury, não por ser contestador, mas por ser negro, sambista e pobre. É o encontro trágico da estética com a política. Encontro trágico que se repete, não como farsa, na morte de centenas de Patos N’Águas que habitam as periferias ou que circulam onde “não deveriam”. Portanto, Pato N’Água é uma “constelação”, uma destas estruturas simbólicas que é o encontro do passado com a ruína do presente. Constelação que hoje se faz presente quando os grupos dominantes não se contentam em exterminar seus dominados, mas calar toda manifestação cultural que lhes confira dignidade e reconhecimento.

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Este é apenas um sinal da força crítica que a estética do Cordão possibilita. Um desvio no tempo e no espaço através do conjunto de seus símbolos, expresso não através de discursos, mas pela música, poesia, imagens e alegorias diversas com alto potencial político. Enfim, o Cordão prepara uma luta simbólica contra a força da mentira que se reproduz não apenas no passado da ditadura civil-militar, mas na narrativa de um país que desconhece seu presente genocida. Uma luta de classes que opera no imaginário, sobre o qual também a esquerda precisa espantar fantasmas que rondam sua percepção e sua atitude.

Coletivo Zagaia, com colaboração de Danilo César e outros guerreiros

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