Archive for julho 2012

Roda de Samba do Cordão da Mentira

Quando vai acabar o genocídio popular?

Onde: ECLA – Espaço Cultural Latino-Americano. Rua da Abolição, 244, Bixiga.

Quando: Domingo dia 5, a partir das 16h.

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Proibindo os proibidões

por em jul 29, 2012 no Blog do Coletivo Zagaia

Zona Noroeste. Pra quem não conhece a geografia da ilha de Santos, vale a pena explicar onde fica. Pois Santos é, em grande parte, um pedaço de terra cercado por água por todos os lados e dividido pelo morro em duas faces. A primeira, mais conhecida no cartão-postão: o lado rico da cidade, com a muralha de prédios e os jardins das praias. Do outro, o complexo que chamamos Zona Noroeste, território ocupado por palafitas e conjuntos habitacionais, onde habita uma comunidade abandonada pelo poder público (nordestinos e negros em grande maioria, trabalhadores do cais e nas regiões da Baixada Santista). Pois é neste lado da geografia santista (e são vicentina) que são cantados os “proibidões”, os funks que habitam o território indeterminado entre a denúncia social e a apologia ao crime contra o poder policial, por vezes em defesa de facções criminosas.

Durante os últimos dois anos, a relação entre a Zona Noroeste e os proibidões ficou conhecida nos noticiários pelo assassinato de alguns de seus principais MC´s e DJ´s. Felipe Boladão e Felipe da Silva foram os primeiros (2010); em seguida, MC Duda do Marapé (2011) e, mais recentemente, MC Primo e MC Careca (2012). Todos eles representavam a voz do Proibidão, avançando sobre o sinal permitido ao “funk das telas da Globo”. Neste estilo, ao lado dos códigos sexuais nas danças próprias aos bailes funks (ou seria liberalização do corpo aquartelado nas horas de trabalho?), os proibidões são um meio sutil para enviar mensagens para sua comunidade.

 

Na letra de MC Felipe Boladão, “A viagem”, uma espécie de oração aos amigos mortos, podemos encontrar a seguinte estrofe: “Não dou mais valor às coisas fúteis da vida/ Acho que estou aprendendo a viver/ O sofrimento educou minha mente/
E mesmo assim não consigo entender”. Este sentido de perplexidade ocupa grande parte das músicas de Felipe Boladão, assassinado ainda jovem, como muitos de sua geração acossada, seja pelo mecanismo das facções criminosas, seja pelos esquadrões da morte, seja pela polícia – considerando estas instituições como separadas oficialmente, mas reconhecendo aí algo mais “paralelo”. Talvez, a pergunta que fique seja: porque neste “Brasil moderno”, a visão que se tem é a do inferno (parafraseando outra letra de Boladão: “Mundo moderno”)? E por que encontrar no funk um veículo para expressar estas dúvidas?

Expressão do Funk

Das críticas ao Proibidão, a mais recorrente é sua apologia às facções criminosas. Daí, se pretende criar uma linha de raciocínio em nosso imaginário que justificaria as mortes de tais funkeiros, no clima de guerra que se constrói quando o assunto é o conflito entre PMs e traficantes. Não se sabe até que ponto os funkeiros estão envolvidos com este universo. De fato, em suas músicas, há descrições de assaltos e enfrentamento com os “botas”. E quando as alternativas estão entre a defesa do PCC e o silêncio, é sinal de que há algo perigoso neste discurso.

No entanto, fazer esta conexão é um modo simples de não entender as coisas. Ao lado de tais defesas, o proibidão opera suas denúncias. Neste sentido, há algo de verdadeiro na defesa complicada do “Paz, justiça e liberdade”, quando se convive durante gerações uma contabilidade de jovens mortos, quando se habita em um lugar muitas vezes abandonado, quando o signo maior da polícia é o esculacho arbitrário para instaurar uma zona de segurança através do medo.

“Rima agressiva” estava tatuada no braço do último funkeiro assassinado, MC Careca. E talvez esta marca tenha um significado mais contundente. No clima de guerra, no ambiente de exceção, a forma cultural do Funk é este modo em que a denúncia vem acompanhada da agressividade da batida, da violência das palavras de ameaça e de esperança, do sentido de um revide que está por vir, da perplexidade em não entender a aparente arbitrariedade que elimina os seus próximos. Um modo direto de enviar uma mensagem à própria realidade em que vivem.

Enquadrar esta forma como um modo simples de expressão, talvez seja deixar de lado o fato de que no interior desta simplicidade há uma possibilidade ampla de misturar discursos: letradas ou ritmadas. De um modo muito próximo ao rap, os proibidões permitem uma mescla grande: nas batidas podem ser ouvidas as rajadas de balas, como se estivessem atirando para algum lugar, dando algum aviso em meio a um Brasil ainda estranho e confuso. Tiros para o alto, como se estivessem a dar algum aviso? Talvez. Aviso que está em um dos ritmos de MC Careca e Pixote: “Vai dar Guerra”: “As favelas aumentam e com elas os sonhos”. O que fazer com este processo e suas demandas? Silenciar isto é o procedimento mais comum que encontramos na história que forma nossa sociedade. Até quando?

httpv://youtu.be/DiwC1DjvXh8

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MANIFESTO DA ANTROPOFAGIA PERIFÉRICA

Por Poeta Sérgio Vaz, da Cooperifasp São Paulo

… A Periferia nos une pelo amor, pela dor e pela cor. dos becos e vielas há de vir a voz que grita contra o silêncio que nos pune. Eis que surge das ladeiras um povo lindo e inteligente galopando contra o passado. A favor de um futuro limpo, para todos os brasileiros.

A favor de um subúrbio que clama por arte e cultura, e universidade para a diversidade. Agogôs e tamborins acompanhados de violinos, só depois da aula.

Contra a arte patrocinada pelos que corrompem a liberdade de opção. Contra a arte fabricada para destruir o senso crítico, a emoção e a sensibilidade que nasce da múltipla escolha.

A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.

A favor do batuque da cozinha que nasce na cozinha e sinhá não quer. Da poesia periférica que brota na porta do bar.
Do teatro que não vem do “ter ou não ter…”. Do cinema real que transmite ilusão.
Das Artes Plásticas, que, de concreto, quer substituir os barracos de madeiras.
Da Dança que desafoga no lago dos cisnes.
Da Música que não embala os adormecidos.
Da Literatura das ruas despertando nas calçadas.

A Periferia unida, no centro de todas as coisas.

Contra o racismo, a intolerância e as injustiças sociais das quais a arte vigente não fala.
Contra o artista surdo-mudo e a letra que não fala.

É preciso sugar da arte um novo tipo de artista: o artista-cidadão. Aquele que na sua arte não revoluciona o mundo, mas também não compactua com a mediocridade que imbeciliza um povo desprovido de oportunidades. Um artista a serviço da comunidade, do país. Que armado da verdade, por si só exercita a revolução.

Contra a arte domingueira que defeca em nossa sala e nos hipnotiza no colo da poltrona.
Contra a barbárie que é a falta de bibliotecas, cinemas, museus, teatros e espaços para o acesso à produção cultural.
Contra reis e rainhas do castelo globalizado e quadril avantajado.
Contra o capital que ignora o interior a favor do exterior. Miami pra eles ? “Me ame pra nós!”.
Contra os carrascos e as vítimas do sistema.
Contra os covardes e eruditos de aquário.
Contra o artista serviçal escravo da vaidade.
Contra os vampiros das verbas públicas e arte privada.
A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.

Por uma Periferia que nos une pelo amor, pela dor e pela cor.

É TUDO NOSSO!

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Lançamento do livro “Encarceramento em massa: Símbolo do Estado Penal”

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Mentiras, verdades e silêncio sobre a política de insegurança pública

Escrito por Givanildo Manoel (Giva)   
Quarta, 25 de Julho de 2012
 

 

Uma onda de violência em São Paulo. Entre a interpretação dada pela grande mídia e a vida cotidiana que segue na cidade, a população permanece afundada num campo de desinformação e reprodução do mais preconceituoso senso comum. Que a polícia militar é um pólo vivo e ativo da herança ditatorial, todos sabem. Que é uma das mais violentas do mundo, todos veem. Qual a novidade então? O que explica essa recente onda de violência e mortes nas periferias que já matou mais de 200 pessoas?

 

Há muitos anos que diversos grupos – como o Tribunal Popular, Comitê contra o genocídio da Juventude Negra, Rede contra Violência, Mães de Maio, Coletivo Merlino, entre outros – têm denunciado a violência do Estado contra a população pobre, em especial contra a juventude negra. Diversos foram os casos que tentaram levantar uma discussão séria e profunda sobre o modelo de segurança adotado em São Paulo e no Brasil.

 

Um caso emblemático e ao mesmo tempo típico é a do motoboy Eduardo Pinheiro dos Santos, assassinado na frente da mãe em abril de 2010. Os policiais o contiveram como suspeito, o julgaram como culpado e ali, sob os olhares desesperados da mãe, aplicaram-lhe a sentença de morte. Ele era negro, pobre e, portanto, suspeito e culpado – segundo a atual visão de segurança pública.

 

O problema é que não nos colocamos a pensar que política é essa, até porque por muitos anos essa ideologia entra cotidianamente em nossas vidas através dos programas sensacionalistas do mundo cão, como o Aqui e Agora, Programa do Ratinho, Datena e outros, ou das notícias que não passam de boletins de ocorrência escritos com outras palavras. Fomos sendo hipnotizados por uma falsa idéia de que era necessária uma política de segurança, que, para ser mais eficiente, poderia violar todos os nossos direitos, transferindo para o braço armado do Estado todos os desígnios das nossas vidas. A cada tiro no cidadão, um tiro em nossa já muito baleada Constituição.

 

O atual governador do estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, quando assumiu seu primeiro mandato em 2001 reafirmou a mentalidade intervencionista, repressiva e autoritária baseada na doutrina de segurança pública dos Estados Unidos de guerra preventiva e permanente contra o terror. A política de “tolerância zero” é de guerra contra o inimigo interno, já que não estamos em guerra com outro país. Pra quem acha um exagero, já que se nomeia o atual regime que vivemos de democracia, até as estatísticas oficiais apontam que o inimigo interno é a população pobre e negra.

 

Evidentemente, essa política que teve suas bases constituídas no período da ditadura militar esmagou qualquer outro tipo de perspectiva de segurança pública a partir da amnésia e impunidade dos crimes cometidos naquela ainda recente época. Mas também pela naturalização de massacres e chacinas, como o do Carandiru, como um dos símbolos da transição desta política ditatorial para os tempos de democracia burguesa.

 

Com nova roupagem, essa ótica foi ampliada para os setores que também combateram a ditadura militar. O governo federal assumiu essa doutrina de segurança, adotando as UPPs como a expressão dessa capitulação à utilização do uso da força desmedida pelo Estado. A mídia pede e o exército volta, vez ou outra, a desfilar pelas ruas de diversas cidades.

 

O resultado é um desastre humanitário sem precedentes. O Brasil, ao longo de 10 anos, viveu um aumento de 576% de mortes violentas, foram mais de meio milhão de mortes e a ampliação de encarcerados no Brasil dobrou, indo para 500 mil. Hoje somos o terceiro país a mais encarcerar no mundo, perdendo só para a China e Estados Unidos.

 

O endurecimento da punição tem uma intencionalidade, como tem a intencionalidade essa política de insegurança pública que estrutura a violência estatal. É preciso que seja dito que a justificativa de guerra às drogas e a guerra à criminalidade é falsa, já que nesta estranha batalha, na imensa maioria, são os pobres que morrem. Uma guerra às drogas e à criminalidade que não atinge os mais poderosos setores envolvidos, muito ricos, não passa da mais escancarada guerra aos pobres. E não só pelas mortes, mas também pela política de encarceramento em massa, que caminha mais rápido para ser um meio de exploração da mão de obra precarizada e análoga à escravidão, travestindo essa exploração de beneficio para o restante da população. E dentro do sistema carcerário, sabe-se também que a tortura é corriqueira. Ou seja, estamos estruturando no Brasil um Estado penal.

 

Se por um lado a eficiência se viu no mínimo deficiente, por outro lado, a prática aponta que é um completo desastre. O aumento da população carcerária fortaleceu alguns grupos que passaram a ter poder na estrutura social dentro e fora das penitenciárias.

 

Mas qual é a motivação das mortes e repressão?

 

O primeiro desafio para alteração deste quadro talvez seja a superação da visão de que a postura de extrema repressão policial é apenas uma questão de desequilíbrio desses homens e mulheres ou de seus comandantes. De fato a extrema precarização do trabalho dos policiais e a orientação ideológica das corporações são fatores importantes. Mas é também a disputa para aplicação de um projeto de sociedade e de cidade que faz o Estado, por si só, optar por lançar mão de tal brutalidade.

 

Na cidade de São Paulo, o quase caricato prefeito Gilberto Kassab, como bom sucessor da gestão Serra, tomou diversas medidas em doses homeopáticas – mas muito dolorosas – que procuram um novo ordenamento geopolítico e imobiliário na cidade. A coleção de proibições visa expandir as fronteiras das áreas a serem exploradas pelo setor imobiliário.

 

O prefeito impôs uma política de higienização do centro da cidade, com os jatos de água diários nos moradores de rua, ameaça de proibição dos sopões, despejos de ocupações por moradia, expulsão dos vendedores ambulantes, ação repressiva na cracolândia e tantas outras.

 

Estranhamente, a cidade bate recordes de incêndios em favelas. Muitos obviamente criminosos (até porque se dão em terrenos em disputa), outros que, mesmo acidentais, facilitam do mesmo jeito que novos empreendimentos sejam construídos nestes locais, os valorizando. Isso tudo contribuiu, por exemplo, no aumento da população de moradores de rua, que dobrou nos anos do governo Serra-Kassab, somando mais de 20 mil pessoas, e para a disseminação de cracolândias por aí.

 

Mesmo os empreendimentos como viadutos, monotrilhos e grandes obras que teoricamente beneficiam a população acabam por despejar centenas de famílias, valorizar algumas regiões e substituir essas pessoas por outras com mais condições de consumidor de imóveis e outros bens. Isso se acirra ainda mais com a preparação da cidade para receber a Copa do Mundo. Por todo o país, mais famílias sofrem despejo, e enquanto a mídia teima em comemorar seus lucros com o evento as cidades servem de laboratório para uma nova estruturação, mas também para aplicação de um novo fôlego das políticas violentas de segurança.

 

Outras medidas, muitas vezes encaradas como transversais, também expressam essa tomada territorial. Desde a proibição dos artistas de rua, passando pela lei do Psiu e chegando até a ofensiva contra os saraus nas periferias, colocam sob a lei um modo de vida a ser seguido pela população. E a desigualdade também se encontra nesses fatos, já que isso na prática impede o acesso ao lazer e à cultura que, diante da vida massacrante de trabalho, têm sido espaços fundamentais de organização e resistência ao modelito neoliberal da cidade.

 

E é também por isso que se militariza tanto São Paulo. As tropas estão aí para abrir espaço e expandir as fronteiras da segregação social. Os prefeitos militarizaram 31 das 32 subprefeituras, colocando coronéis aposentados na gestão. A famigerada operação delegada, feita em um acordo ilegal com o governo do estado, contratou os serviços de mais de 4 mil policiais e agravou a violência utilizada pela Guarda Civil Metropolitana.

 

E qual a novidade?

 

Com a vitória da imposição desta lógica, se elevou também o patamar de relação do Estado com o chamado crime organizado. Como bem define o deputado estadual do PSOL-RJ Marcelo Freixo, só existe crime organizado se esse tiver relação e proteção do Estado.

 

O que assistimos neste momento com a recente onda de mortes praticadas por policiais no estado de São Paulo nos leva a crer que há uma dificuldade desses setores administrarem a sua própria política de aliança com setores que alegam combater. Diferente do que o senso comum impregna, aparentemente, não se trata de um conflito entre Estado versus crime, mas de um desacerto na aliança estabelecida entre esses dois atores. Ambos criminosos.

 

Já é de conhecimento público as investigações de envolvimento de policiais em assaltos a caixas eletrônicos, condomínios de luxo e outras práticas de corrupção. Mas isso ainda é encarado como um problema meramente moral e como fatos isolados de um setor contaminado da polícia.

 

A inexplicável ação da ROTA na zona leste de São Paulo, matando seis pessoas, e a morte de seis policias, em sua maioria em bico, desencadearam uma série de mortes assumidas ou não pela polícia. Estas não foram medidas tomadas somente pelos policias armados ou pelo seu comando militar, mas sim através da autorização do governador e do secretário de Segurança Publica. Sem que nenhuma morte fosse explicada para a população e em defesa de uma certa “normalidade”, foi dada autorização para que a polícia utilizasse toda a força necessária, incluindo a ação de forma ilegal pelo não uso de fardas. Sim, policiais estão matando com e sem fardas, com autorização do governo. Na prática, se aproximam de uma espécie de grupo de extermínio legalizado.

 

Neste exato momento é a polícia quem está decretando toque de recolher em diversas regiões da cidade. Em menos de um mês foram contabilizada cerca de 200 mortes! Enquanto são registradas como “resistência seguida de morte”, supostamente investigadas pela Polícia Civil, mas quase sempre engavetadas pela Secretaria de Segurança Pública, a população vive sob o tiroteio da desinformação.

 

Mais uma vez, durante o período eleitoral, a política é de terror à população. E dessa forma tentam convencer que para proteção da propriedade privada vale tudo. Aos poucos a grande mídia vai repetindo a retórica do medo: “imaginem uma cidade sem polícia, seria o caos”. Na contramão disso estão ações isoladas, como a declaração da mãe de Ricardo Aquino, publicitário morto em Pinheiros, que desejou “que sua morte não tenha sido em vão”, além de responsabilizar a política de segurança como um todo.

 

O que está posto para o povo de São Paulo é que essa lógica faliu, aliás, já nasceu falida, pois a verdadeira política de segurança capaz de enfrentar a violência se dá pelo combate à desigualdade social com saúde, educação, lazer, esporte, cultura, emprego e moradia bons e públicos. De imediato, é preciso que a população organize sua indignação contra essas mortes, pela abertura de uma CPI para investigar a polícia, desmilitarização da polícia e pela construção de uma segurança controlada pelo próprio povo.

 

O período eleitoral precisa ser usado como forma de rejeição aos candidatos e partidos que estão aplicando à bala esse reordenamento da cidade, mas também aos que, em nome da governabilidade e de um tempinho de televisão, se alinham com Malufs da vida, protagonista central neste pensamento conservador de segurança pública. É preciso dar um grito, nas ruas e nas urnas, a favor da vida da classe trabalhadora, antes que a polícia e essa política agridam ainda mais nossa sangrenta democracia.

 

Givanildo Manoel (“Giva”) é militante de direitos humanos, do Tribunal Popular e membro do PSOL.

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O CORDÃO DA MENTIRA ESTÁ DE VOLTA! ou AS RUAS SÃO PARA LUTAR! (e quem não luta dança).

Onde: ECLA – Espaço Cultural Latino-Americano. Rua da Abolição, 244, Bixiga. Domingo dia 15, a partir das 16h.

O Cordão da Mentira sairá no final de setembro com o tema “Quando irá acabar o Genocídio Popular?” No domingo dia 15/7 faremos a primeira roda dos músicos e compositores do cordão, onde já serão apresentadas novas composições. Venham bebemorar, conspirar  e ouvir uma roda de samba de gente grande!

O Cordão da Mentira é um bloco carnavalesco de intervenção estética que, de modo bem humorado e radical, versa e canta sobre temas cruciais para uma real transformação da sociedade brasileira. O nosso primeiro desfile teve como tema “Quando vai acabar a ditadura civil militar?” e juntou cerca de mil pessoas no 1o de abril, dia do golpe militar e dia da mentira.

O tema de nosso próximo desfile será “Quando irá acabar o genocídio popular?” O tema dispensa justificativas. Em meio à uma nova onda de chacinas na periferia paulistana, poucos meses após a barbárie de Pinheirinho, nos vemos instigados a responder estética e politicamente ao fascismo de Estado em que vivemos. Coincidentemente ou não, desfilaremos proximamente ao infeliz aniversário dos 20 anos do massacre do Carandiru. Cantaremos nas ruas aos despejados , aos humilhados, aos encarcerados, aos massacrados, aos chacinados. Aos jovens negros que não tiveram chance, aos que, para a “sociedade” paulistana, valem menos do que a bala que os mata.

O Cordão vai tomar as ruas de novo!  Carnavalizemos contra a política de habitação que incendeia favelas, contra a política de saúde de higienização da Cracolândia, contra uma política de transportes que isola o centro e a periferia, e contra uma política de assistência social que é uma mosca na sopa de muita gente! Com o som de nosso batuquejê cantaremos à tranformação! AS RUAS SÃO PARA LUTAR! (e quem não luta dança).

No processo de construção de enredo, samba e alas do Cordão, discutiremos alguns pontos que nos parecem importantes em relação ao Genocídio Popular:

1) Os genocídios de ontem e de hoje. A ditadura civil-militar e seus laços com  a violência contemporânea.

2) 20 anos do massacre do Carandiru (2 de outubro)

3) O jovem negro como alvo preferencial das polícia de extermínio

4) As formas do Estado policial (polícia militar, milícias, grupos de extermínio, sub-prefeituras tomadas por militares reformados, etc.).

6) O encarceramento em massa, a vulgarização da tortura e a ilegalidade como instituição.

7) O poder judiciário como braço da ilegalidade.

8)Pena de morte como rito sumário. Os autos de “resistência seguida de morte” e a prática de eliminação do “suspeito”.

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Manifesto Cordão da Mentira Primeiro de Abril de 2012

“Quando vai acabar a ditadura civil-militar?”

Dizem que quando uma mentira é repetida exaustivamente, ela se torna verdade. Dizem também, que é como farsa que o presente repete o passado. Por isso, vamos “celebrar” a farsa, a mentira e sua repetição exaustiva.

No dia da mentira de 1964, ocorreu o golpe que instituiu a ditadura civil-militar. Dizem que ela acabou. Porém, a maior ilusão da história brasileira repete-se. A ditadura civil-militar se fortalece no golpe de 1964 e, até hoje, ninguém sabe quando vai acabar! Nós vamos celebrar.

No dia primeiro de abril, abram alas para o Cordão da Mentira!

Quando admitimos que os crimes do passado permaneçam impunes, abrimos precedentes para que eles sejam repetidos no presente. Com a roupagem indefectível da democracia, da constituição, do direito à livre manifestação, o Estado continua executando os seus inimigos e calando de uma forma ou de outra aqueles que pensam e atuam em favor da tolerância, em favor da utilização dos espaços públicos de maneira respeitosa e saudável. Em nome da manutenção da produção e do consumo ostensivo vivemos o estado de exceção como regra e o direito conquistado de ir às urnas acaba apenas legitimando o que é uma verdadeira licença para calar, reprimir, matar.

Afinal:
Quando vai acabar o massacre de pobres nas periferias?
Quando os corpos do passado serão encontrados e dignamente reconhecidos em suas lutas?
Quando as armas dos militares deixarão de ser o signo do extermínio?
Até quando o dinheiro de poucos financiará o silêncio de muitos?
Até quando ouviremos o ronco dos Caveirões, Fumanchús e das Kombis genocidas?

Lembremos Pinheirinho, Eldorado do Carajás, Araguaia e as Ligas Camponesas! Casos que podem ser vistos como exemplos históricos do nosso tempo para a compreensão do processo pelo qual o Estado colocou a especulação imobiliária, a propriedade privada e a lucratividade acima da vida. Nada pode ser mais valorizado do que a vida. Somente um Estado calcado em mentiras pode favorecer essa inversão de valores.

Lembremos Mariguela, Pato N´Água, Herzog e os 492 executados em São Paulo em Maio de 2006! Personlidades anônimas ou conhecidas exterminadas pelas práticas autoritárias que resolvem suas contradições à bala.

Hoje, uma simples Comissão da Verdade – que apenas pretende investigar a história – levanta os fantasmas do passado, ocultos nas sombras da Lei de Anistia. Façamos então um Cordão da Mentira! Celebremos com a força dos batuques a farsa que une presente, passado e futuro.

Vivamos nossa balela! Enquanto isso, ditadores são julgados e condenados por seus crimes em terras argentinas, chilenas e uruguaias. Falemos outra língua: a gramática do engodo com o sotaque do esquecimento. Entremos na contramão da história!

Risquemos da memória que alguém pagou pra ver até o bico espumar no choque agudo das genitálias! Exaltemos os gozos pervertidos de empresas e seus braços armados, irmãos de sangue do torturado. Lembremos as mãos limpas que aplaudem as sessões de sofrimento. Pois o que vale é a fábula da tradição, assassina de famílias, com a maior propriedade!

Povoemos os porões do imaginário, com tudo aquilo que a ditadura encarcerou na sua cultura! Levemos pra lá o samba dos cordões, as imagens censuradas, as bocas amordaçadas. Fantasiemos as ruas com seus símbolos de opressão! Enganemos a todos com as farsas de nossa história!

Neste Primeiro de Abril, façamos a Mentira responder: Quando vai acabar a ditadura civil-militar?

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Coletivo Zagaia e Grupo Folias apóiam Sarau do Binho

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Uma ação educativa? ou o modo ONG de encarar a vida.

“Não-governamental e além do mais sem fins lucrativos? Tão longe, portanto, do dinheiro quanto do poder?”

Paulo Arantes in Zero a Esquerda, p. 167.

 

Estas dúvidas foram levantadas há quase uma década atrás em um artigo curiosa e originalmente publicado nos Cadernos Abong, com o título “Esquerda e Direita no espelho das ONGs”. Dez  anos se passaram, e podemos dizer que esta questão ainda não se calou. Nos seminários Labirintos e Trincheiras, produzido por esta Zagaia junto ao grupo Folias, lembramos a discussão sobre o tema, levantada por Fábio Resende, da Brava Cia., sobre como o trabalho crítico dos coletivos de teatro ficam limitados perante a participação das ONGs. Afinal, como dizer para a comunidade que a mesma instituição que assopra é a que morde? Como potencializar a linguagem que circula nas quebradas, quando tudo deve estar reduzido aos processos pedagógicos da arte-educação que leva a cultura do centro para as bordas da periferia, ou que ensina a fazer arte a partir dos materiais recicláveis que o consumo de mercadorias nos deixa de herança? Na periferia, não restariam outros materiais?

 

Neste texto,  Paulo Arantes questiona se ele não estaria sendo injusto, misturando o joio e o trigo, aproximando as ONGs da “transformação social” com aquelas que seriam “espúrias e apócrifas”. Mas, hoje, uma década depois, podemos dizer que o modo ONG de encarar a vida apenas nos leva às perversões travestidas de puritanismo. Prova maior disso é o cinismo do texto “Sarau do Binho: Crônica de um Poeta sem Bar”, escrito por Antonio Eleilson Leite, cidadão “proativo”, funcionário da ONG Ação Educativa, responsável sintomaticamente pela “Agenda Cultural da Periferia”.  Sem titubear na fala mansa de quem não quer se comprometer, o autor vai, aos poucos, apresentando sua visão de mundo: o que é o Sarau? Como deveria funcionar? Do que sofrem aquelas comunidades? Quais os limites do modelo do Binho? Como uma crise pode ser lucrativa? Nestas perguntas, algo subjaz: uma linguagem tão perto do poder e tão perto do dinheiro…

 

Tão perto do poder e tão fora do contexto

Pois é na fala mansa que o personagem se cria. Na posição mediana de um (inter)mediador cultural, Eleilson procura ajustar as pontas: atar relações com o Binho, retirando dele qualquer imagem de homem fora-da-lei (o que de fato não é), ao mesmo tempo que desvaloriza todo o caráter político de apoio de diversos coletivos de cultura, considerando-os “apressados” ao considerar o fechamento do bar como um ato de criminalização da cultura de periferia pela prefeitura de Kassab. Recurso básico: dividir para conquistar. Afinal, entre os que apoiam o Binho, estariam os apressados que, num ato “paranoico”, apenas repetiriam a ladainha de que o governo Kassab está contra eles. Imaginem?! Além do Binho, outros saraus entraram na dança, por motivos variados: coincidência???

Nada mais deslocado quando se teriam políticas públicas com as quais se pode contar sempre, não é mesmo? Basta um pouco de noção de gerenciamento que o dinheiro chega até eles!!! “Será que não é possível curtir uma poesia sem assumir postura de militante cultural?”, indaga. Em contrapartida, na outra ponta, estão aqueles que querem curtir a “poesia-arte”, defendida por Eleilson, imaculada nos espaços oficiais dos Saraus: aqueles que buscam na literatura um outro espaço, em que as agruras da miséria sejam compensadas pela beleza das palavras. Deste modo, nesta oposição calculada construída cirurgicamente entre dois Binhos – o da “arte”, “pós rancor” e “amigo” da gestão Kassab e o da política, “inimigo” da gestão Kassab – resta ao leitor optar por qual lado ficar.

 

No front anti-Kassab, não se reconheceriam as “ações educativas” do prefeito. Pelo contrário, confundiriam o subprefeito “técnico” em administrar populações e seus anseios, com o passado militar dos mesmos. Antigos militares, hoje reservistas, nada teriam em comum com o seu passado. Aposentou, mudou de estatuto… é isto que os “inimigos do Kassab” confundem. O fato das subprefeituras de São Paulo serem quase em sua totalidade comandadas por militares da reserva é apenas uma escolha técnica de uma gestão contraditória. No modo ONG de encarar a vida, tudo é questão de gerenciamento: missão dada é missão cumprida. As ordens de despejo são prova de que, entre a técnica de gerenciamento das populações e a estratégia de um militar, a diferença é a farda. Ainda neste modo ONG de encarar a vida, não importa o partido, o importante é gerir a miséria e evitar os conflitos.

Militarização? Que nada!

Daí a piscadela desta nova astúcia, pois na lógica da cafetinagem do mediador cultural todo o homem está à venda e todo poeta tem seu preço. Como se dissesse de lado e baixinho: “Binho, meu amigo, não liga pra esses aí, não. Existem outras formas: tem o VAI, tem diversos editais… Esses daí, estão alucinados com a violência com a qual estão acostumados. Você pode ser exemplo: vira um ponto de cultura! Eu te ajudo.” E ele ajudaria – não se nega. Afinal, de um lado, domina o linguajar da periferia (um dia veio de lá); de outro, domina como ninguém o idioma do dinheiro. Promove ações para captar fundos, auxilia os Saraus, fica bem na fita da comunidade, e assim o modo ONG de encarar a vida segue adiante. Mediador profundo das ações sociais e dos bons costumes cidadãos, Eleilson pretende ficar de bem com a comunidade que lhe interessa e a prefeitura. “De sorte que nem sempre é fácil perceber onde termina a utopia republicana e principia um empreendimento tocado à imagem e semelhança do mundo dos negócios”, como lembra Paulo Arantes.

 

Tão perto da grana, tão longe de você

Mas, óbvio, tudo tem um custo. Mesquinho é verdade, se pensarmos que o que está em jogo é a intermediação dos orçamentos municipal, estadual e federal para a cultura. E o mais importante é que, neste pinga-pinga, a ONG se mostra peça central. As migalhas orçamentárias são distribuídas entre editais, pelos quais concorrentes disputam o seu quinhão. Especializados em projetos, instituições mediadoras tratam de vincular o processo cultural aos termos do edital (quando eles mesmos não estão por trás da redação dos termos do edital pretensamente público). Ainda que falso – um pouquinho de idealismo não fere jamais os fins não-lucrativos do empreendimento – estes mediadores combatem por verbas das mais diversas frentes (públicas e privadas) sob a condição “justa” de, no interior deste jogo, ganhar uma parcela significativa da fatia. Neste negócio, naturalmente, conta-se com trabalho voluntário (natural baratear os seus “produtos” culturais) desde que a capacidade de gerenciamento das atividades não fiquem prejudicadas e os ganhos não-lucrativos sejam repartidos por ordem hierárquica do edital. As empresas, por sua vez, concedem os valores e direcionam o andamento do projeto. Travam assim um diálogo confortável entre seus fundos orçamentários e os (inter)mediadores. Claro, o “público-alvo” beneficiário jamais participa deste diálogo, incapazes que são de dominar o riquíssimo idioma, aparecendo apenas nos eventos comemorativos para mostrar o show do populacho. Daí que, sem a variante popular no processo, ONGs mediadoras e empresários podem incentivar projetos que lhes interessam ou mesmo fechar aqueles que lhes confiram prejuízos, seja ele monetário ou simbólico. Inúmeros são os exemplos de projetos sem fundamento, que giram em falso até que a roda da fortuna lhes sorria novamente. Estratégia de gerenciamento clássica dos tempos da Arte da Guerra, livro de bolso do universo empresarial.

 

Mas este é apenas um modo de encarar a coisa. No modo ONG, mais do que captadores de recursos, é preciso ser um “captador simbólico”. Afinal, verba não é suficiente para legitimar a autoridade alfandegária dos mediadores: que lhes concedam o poder para dizer que ações valem ou não. Não basta uma Coca-Cola chegar para ajudar; é preciso um exército para convencer que o projeto é legal, produtivo e, tanto melhor, a única solução possível. Para tanto, é preciso captar “valor simbólico” e concorrer com as alternativas já existentes neste território.

 

 

A marca que elas gostam

Valor simbólico não se consegue da noite pro dia, como num assalto a banco. É preciso artimanha. Característica do texto do Eleilson: enquanto coordenador cultural de uma ONG, vale o prestígio de estar perifericamente às voltas do centro. Primeiro, como já dito, não se pode nunca enfrentar o inimigo, mas dividi-lo. Com uma parte ganha, é preciso então levar os novos “aliados” para o seu terreno, propriamente. Daí a estranha defesa do Sarau do Binho, contra o Bar do Binho (ou a defesa do Binho contra ele mesmo). Diante da alternativa simbólica de um Sarau que ocorre num bar, espaço que parece avesso ao imaginário ongueiro (embora nas noites de samba, a Ação Educativa forneça aos convivas suas biritas) parte para o ataque contra a mistura (saudável) entre bebida, literatura e música. Aliás, nada mais comum no universo boêmio e transgressor das artes; ou os antigos poetas, que Eleilson tanto idolatra, seriam apenas funcionários públicos que em suas noites de folga fugiam para seus comportados lares, onde compunham odes de enfeitar salões?

Neste ataque ao Bar do Binho, a crônica que Eleilson cria tem destino certo: o poeta no bar é um animal em extinção. Por outro lado, os saraus em ONGs, bibliotecas e outros lugares reconhecidos oficialmente são o “novo paradigma”. Muitos deles frutos dos esforços da mediação, que bebe à rodo dos editais e vomita cidadania. Tudo o que lhe é alternativo, um bar inclusive, deve ser lacrado como espaço proibido da cultura. Ali não há possibilidade de controle, mas um caos que a Arte-Educação não consegue deter. Seriam como crianças no recreio, brincando de cultura. Nada sério e comportado como mandam os editais. Daí que atacar o bar em defesa do sarau do Binho revela mais do que esperamos: a luta pelo valor simbólico que aquele local conquistou, valor que escapa das malhas cidadãs sem fins lucrativos. Diante deste fato, Eleilson quer ser o cronista de uma pretensa morte anunciada, angariando assim um valor simbólico necessário para manter seu papel de mediador cultural. Algo que confunde os bem-intencionados e aproxima os mal-intencionados…

 

Moral da crônica…

Por isso, não se trata de um jogo meramente ganancioso. Trata-se de um modo de ver o mundo. Um modo de captar valor simbólico e continuar como parasita entre os extremos, como um bom (inter)mediador deve ser. Adquirir “valor simbólico” neste lugar significa poder espalhar para os quatro cantos sua versão da crônica, emplacar nos blogues ditos progressistas como porta-voz da quebrada, ainda que silencie os processos violentos (simbólicos e físicos) contrários à pluralidade das manifestações culturais. Mas, podemos nos perguntar como Binho em um verso seu que Eleilson se esforça por esquecer: “Até quando a corda irá arrebentar do lado mais preto?”

 Tudo se passa como se possível fosse o poeta sem espaço. Um poeta da periferia sem a periferia no poeta. Um poeta sem bar. Nada mais criminoso do que alguém mais tirano do que o tirano. Nada mais miserável do que o valor simbólico que esconde sua violência. O homem do terceiro setor torna-se então o testa de ferro de setores terceiros. Neste modo ONG de encarar a vida, a única moral é o cinismo.

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Manifesto de apoio ao Sarau do Binho

Escrito por Serginho Poeta

No dia 28 de maio de 2012 o nosso amigo Binho, brilhante batalhador pela cultura e pelas causas sociais pode ter realizado seu último Sarau. Ao menos foi isso que nos foi dito no bar, que encerra suas atividades por conta de uma multa de R$ 8.000,00 imposta pela prefeitura, que embargou o bar por este não possuir alvará. Binho tentava conseguir um alvará junto à Prefeitura há muitos anos e não conseguia receber. O barato é pessoal e premeditado.

É direito do povo manifestar-se e apresentar suas criações artísticas, discutir questões de suma importância para toda a sociedade como foi feito várias vezes no Sarau, e que não precise do crivo das instituições governamentais, que seja espontâneo, feito onde o desejo coletivo criar. Devemos respeitar os direitos de outrém, mas não podemos aleijar todo um grupo de trabalhadores que fazem do espaço seu ponto de encontro para comungar a arte, em forma de cinema, teatro, poesia, dança, pintura e tantas outras que por lá passaram.

No espaço muitas pessoas até então invisíveis no meio da multidão dessa megalópole, se descobriram, seja para suas realizações artísticas, seja para o exercício de sua cidadania, portanto entendemos que não pode assim, simplesmente acabar um projeto tão importante para o desenvolvimento da nossa cultura.

O Sarau do Binho já não nos pertence mais, é de toda a nação, uma vez que muitos projetos culturais tomaram-no como inspiração, em lugares remotos da cidade; do Estado, haja visto a participação no Circuito Sesc, onde percorreu várias cidades do interior de São Paulo e foi visto por milhares de pessoas; e do país, onde compatriotas de diversos estados enviam mensagens de agradecimento ao ter passado por nossa cidade e podido participar deste encontro tradicional de segunda feira.

É preciso muito mais que talento para continuar fazendo arte em um país onde apenas o produto cultural interessa aos patrocinadores da cultura, onde a grande mídia vira as costas para as tradições que não se enquadrem nos seus modelos, vide o Carnaval que surgiu de uma necessidade tão legítima e se tornou um grande negócio para as grandes marcas, os grandes meio de comunicação e para os dirigentes das escolas, que vendem a paixão de tantas comunidades. Mas, valente que sempre fomos, não só no discurso como na prática, afinal quantas ações já partiram desse coletivo visando buscar o direito à cidadania, como no apoio à diversas organizações que lutam pelo seu direito, à moradia, à educação, à alimentação e à cultura, não podemos nos render e vamos assoprar esta brasa até que a chama volte a aquecer nossos anseios de um país mais justos e sem classes.

Não podemos deixar morrer o Sarau do Binho. É hora de mostrar a força dos coletivos culturais e sociais de São Paulo e do Brasil. Contamos com o apoio de todos.

 

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