Archive for março 2012

“No dia da mentira cordão celebra a farsa do fim da ditadura” | Catraca Livre

http://catracalivre.folha.uol.com.br/2012/03/cordao-da-mentira-celebra-a-farsa-do-fim-da-ditadura/

Redação em 16/03/12

O velho ditado sentencia “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade” e por essa mesma razão é que, equivocamente, o presente repete o passado. E assim, no dia 1º de abril, o Cordão da Mentira celebra a farsa, a mentira e sua repetição exaustiva em tom de samba,  relembrando aquela que pode ser considerada a maior ilusão da história brasileira: o fim da “ditadura civil-militar” . A concentração acontece a partir das 11h30, no Cemitério da Consolação.

Militante do Partido Operário Comunista(POC), o jornalista Luiz Eduardo Merlino foi torturado e assassinado nas dependências do Doi-Codi paulista, em 1971

Instituída há 47 anos, a ditadura auto-proclamada revolução pode ser considerada uma grande mentira desde o seu começo até os dias atuais. E por isso, diante da impunidade que se perpetua, representantes do Carnaval paulistano (Camisa Verde, Projeto Nosso Samba), coletivos culturais, sociais e políticos tomarão as ruas para realizar uma intervenção estética, dialogando de modo bem humorado e radical, temas cruciais, na busca pela real transformação da sociedade brasileira.

“Quando vai acabar a ditadura civil-militar?”

De vermelho e preto, o cordão abrirá as alas da infame paulicéia para protestar e estimular a reflexão sobre a violência promovida pelo Estado. Uma ode aos que lutaram por liberdade e respeito, seja no  Pinheirinho, Eldorado do Carajás, Araguaia e as Ligas Camponesas.

Nomes que representaram a luta no passado, como Marighela, Herzog, Pato N´Água e vítimas como os 492 executados em São Paulo em Maio de 2006. Personagens anônimos ou conhecidos aniquilados pelas práticas autoritárias que respondem suas contradições à bala.

De volta às ruas estará tudo aquilo encarcerado nos porões da ditadura. Nas ruas estará o samba dos cordões, imagens censuradas. Gritarão as vozes silenciadas.

No 1º de abril, lembrará-se a pergunta: Quando vai acabar a ditadura civil-militar?

 

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Cia. Estudo de Cena compondo o Cordão também!

Ópera do Bom Burguês

Burguês:
Entenda cidadão.
Se a farinha não se misturar com o fermento
Como se faz para crescer o pão?
Afinal, todos querem um aumento!

Burguês e empregada:
A sociedade é como esta receita
O povo, farinha do mesmo saco,
Precisa do fermento, o rico, sem suspeita
E não me encha o saco!

Empregada e burguês:
Não devemos mais lutar
Esqueçam nossa posição oposta
Todos terão lugar
Nesta mesa posta.

Coro dos trabalhadores:
Mas quem lava os pratos?
Quem tem fome de pão?

Burguês – citado:
Um outro mundo é possível!
Não perca a esperança
Sem a tempestade terrível
A corda não balança.

Burguês:
Fóruns, conselhos
Debates, pentelhos
Tudo para ouvir o pobre diabo
Tudo para ouvir o diabo do pobre

Empregada:
Vamos conversar
Para nada alterar
Um pacto social
Um ato inaugural
Burguês e empregada:
Para o rico triunfar!

Empregada – citado:
Negociar é um grande negócio para a humanidade
Andaremos na corda bamba com tranquilidade.

Coro dos trabalhadores:
Somos contorcionistas do presente, não temos coisa melhor
Se o corpo trava de antemão
Nossa bunda leva a pior
E o diabo amassa o pão.
(Passa a mão)

Burguês e empregada:
Ao final da corda, um acordo.
O pulo mortal para o reino das maravilhas
Seu corpo amortecido por mil mercadorias
Ao final da corda, um acordo.

Coro dos trabalhadores:
Ô da corda, ACORDA!
Este acordo enforca.

Somos pessoas em liquidação
Não é permitida a devolução .

O da corda, DISCORDA!
Este acordo enforca.

Burguês e empregada:
Entenda cidadão.
Se a farinha não se misturar com o fermento
Como se faz para crescer o pão?

Coro dos trabalhadores e empregada:
Temos uma solução para este assunto
O bom burguês
é um burguês defunto!

Burguês:
Mas o que é isso?!

Coro dos trabalhadores e empregada:
Temos uma solução para este assunto
O bom burguês
é um burguês defunto!

Burguês:
Eu sou amigo da minha empregada!

Coro dos trabalhadores e empregada:
Temos uma solução para este assunto
O bom burguês
é um burguês defunto!

Burguês:
Eu vou chamar chamar a polícia!

Coro dos trabalhadores e empregada:
Temos uma solução para este assunto
O bom burguês
é um burguês defunto!

Burguês:
Será que se morre de susto antes da queda?
Esfomeado:
Boa idéia! Pão com presunto!
Criança:
Hum! Que delícia!

companhiaestudodecena.com.br

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“Quem torturou o Zé?” – Nova música

Quem torturou o Zé?
(Zé e Catarina)

Quem torturou o zé?
Foi os gambé foi os gambé!
Quem perseguiu o Zico?
Foi os milico foi os milico!

O que restou da ditadura no brasil?
É quase tudo até o fuzil!
O empresário e a mídia encobriu?
Uma mentira lá em abril!
E se a verdade agora deve ser contada
O bom é ir pra rua e lembrar dos camarada
No meio do cordão a mentira é escancarada
Que a democratura é marmelada !

Quem torturou o zé?
Foi os gambé foi os gambé!
Quem perseguiu o Zico?
Foi os milico foi os milico!

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“Frevo da Falha” – Vídeo do primeiro ensaio

Próximo ensaio marcado para o dia 24 de Março, 15h30min, no Bar do Raí (esquina da R. Gen. Jardim com R. Dr. Vila Nova – Vila Buarque)
Evento no Facebook
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Frevo da “Falha”
(Cuca e Everaldo)

É bala em vez de chibatada
Mandado em lugar de feitor
Emoldurando a senzala
A casa grande se enfeitou

Além de fazenda a fachada
À banca o poder se aliou
Modernizando a curriola
Integrando ao luxo o traidor
Pensando que quem está de fora
Desconhece a luta e o destemor

Notícia ocultando a corja
No rádio e televisor
Realidade imaginária
Eternizando em show o horror

Versão negando o pau-de-arara
Desdém por quem de nós tombou

Mas hoje ocupando a praça
Sem juiz, censor ou editor
Valendo mais que mera errata
A gente desmascara convertido e enganador

Pára de mentir, canalha
Para admitir a “Falha”
Pára de omitir que a dita foi dura demais

Pára de fingir que é justa
Pára de fugir do Ulstra
Para difundir a farsa impressa nos jornais

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Primeiro ensaio, segunda versão!

Como um é pouco e dois é bom, temos mais um cartaz para divulgar o primeiro ensaio do Cordão da Mentira, que será este sábado (17/03) no bar do Raí.

Eles querem que a gente engula essa mentirinha, nós queremos que eles respondam: QUANDO A VIOLÊNCIA VAI ACABAR?

Evento no Face

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Primeiro Ensaio

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O rebatismo simbólico da “Escola de Música do Estado Tom Jobim” para “Escola Livre de Música Pato N’Água

Texto originalmente escrito no Blog da Zagaia

“estou convicto de que um divisor de águas está separando, de forma crescente e indestrutível, a imaginação política democrática dos trabalhadores da empulhação sistemática dos que, até hoje, só defenderam a ditadura dissimulada ou aberta dos poderosos.”

Florestan Fernandes, A ditadura em questão

A repressão no Brasil possui diversas facetas, sendo uma das mais cruéis a alienação do patrimônio simbólico através da apropriação das tradições populares por uma elite que insiste em se dizer aliada das classes exploradas. Os grupos da elite brasileira, tanto no campo da direita como no da esquerda, sempre usufruíram deste legado e, para além disso, apoderaram-se e corromperam esta memória.

A história do samba, por exemplo, deixa de ser a história dos populares de origem negra e passa a ser a história do encontro dos negros e brancos no contexto carioca. A fábula antropológica de Hermano Vianna intitulada o Mistério do Samba, obra ícone entre os acadêmicos festivos, reduz a tradição do samba à um mitológico encontro entre Pixinguinha e Gilberto Freyre, que representaria em si a junção entre a cultura negra e a cultura modernista, representante de uma elite progressista brasileira. A fábula é tão bonita quanto falsa, mas isto pouco importa para grande parte de nossos “pensadores”,  ávidos por uma antropofagia que tem por modelo menos Macunaíma, e mais seu algoz, o gigante Venceslau Pietro Petra.

O samba nasce, se desenvolve e permanece uma tradição negra, descendente da síncopa africana (como bem explica Muniz Sodré em seu lapidar ensaio “Samba, o dono do corpo”) e tem continuidade nos terreiros, favelas e becos ocupados pelos nossos deserdados da terra. Os homens e mulheres brancos que participam da cultura samba são, na maioria das vezes, pessoas que foram rebaixadas à condição de pobreza reservada à parcela da população “de cor” (entenda-se nesta expressão racista os não brancos – negros, índios e mestiços) ou ainda uma parcela da elite que opta estética e politicamente pela cultura dos marginalizados. Não podemos confundir este extrato com os oportunistas de plantão, sempre ávidos por reproduzir a lógica da Casa Grande e Senzala, munidos das táticas e armas da indústria cultural (seja em seu modelo massificado, seja no modelo biscoito fino).

Assim como a cultura samba, a cultura de resistência e de luta contra a opressão foi simbolicamente extorquida das classes populares na reconstituição do período 1964-1984.

Simbolicamente os populares que lutaram contra a repressão foram alvos preferenciais da tática de vilanização das esquerdas que se tornou corrente em nossos meios artísticos e editoriais. Lembremos da segunda morte do “Companheiro Jonas”, herói nordestino egresso das lutas sindicais, assassinado fisicamente pela ditadura militar na tortura e simbolicamente pelo Clã Barreto em conluio com Fernando Gabeira no abominável filme O que é isso companheiro. Neste filme a escolha por vilanizar o guerrilheiro e humanizar o torturador chocou a muitos. Mas poucos foram os que perceberam que o guerrilheiro escolhido para ser o vilão era o único entre eles de origem notadamente popular.

É sabido que o golpe civil-militar de 64 teve como alvo central nos seus primeiros anos as ligas camponesas, os sindicatos e os militares progressistas. Porém muitos historiadores insistem no mito de que a ditadura brava teria começado somente em 1968 com o Ato Institucional Número 5. Antes um grupo intermediário e moderado estaria no poder. Não se trata aqui de negar a substancial piora da repressão após 68. Mas de lembrar que se o AI-5 de uma forma geral representou o início da violência somente para parte dos extratos médios brasileiros politizados. Para a população pobre não foi um começo, mas um aprofundamento da brutal repressão que ocorria desde o dia Primeiro de abril de 64. O povo negro continuou e continua sofrendo as consequências do golpe militar cotidianamente. Muitas das técnicas de tortura implantadas na época ainda são comuns em nossas cadeias. Os massacres e execuções são, como sabemos, corriqueiros.

O livro Dos Filhos Deste Solo cita um total de 424 mortos políticos pelo regime militar. Parece pouco frente às 492 mortes por execução em São Paulo em Maio de 2006, consequência da reação facínora da polícia aos ataques do PCC. Mas por que não consideramos crime político nos anos 60-70 as ações do esquadrão da morte frente à população marginalizada e as políticas de “higienização” e de apoio à especulação imobiliária na cidade e no campo ao longo de toda a ditadura? Muitos milhares de mortos pelas forças de repressão não foram assassinados por suas ideias políticas, mas por sua existência indesejável frente à expansão do capital. Talvez este seja o legado mais duradouro do golpe de 1964 e o menos comentado.

O apito de Pato N´Água emudecido

É neste contexto que lembramos a figura de Pato N’Água, diretor de bateria do cordão Vai Vai, executado pelo esquadrão da morte em 1969. O laudo pericial foi de infarto. Mas no enterro, sambistas amigos constataram a morte matada. Geraldo Filme compôs em sua homenagem um dos sambas mais bonitos de São Paulo, Silêncio no Bexiga, onde dizia: “partiu, não tem placa de bronze / Não fica na história / Sambista de rua morre sem glória / Depois de tanta alegria que ele nos deu / Assim, um fato repete de novo / Sambista de rua, artista do povo / E é mais um que foi sem dizer adeus…”.

O fato repete de novo. E de novo. E sempre. Há muitos Patos N’águas morrendo cotidianamente pela lógica civil militar que insiste em não acabar. Pela idéia de ordem e limpeza (étnica, sobretudo), pelas práticas de eliminação física dos corpos que impedem o livre fluxo do capital e a explosão dos interesses imobiliários. Assim foi em Carajás, assim foi na Candelária, assim foi no Carandiru, assim foi em Corumbiara, assim é cotidianamente em São Paulo, de Pinheirinho à Cracolândia.

É dentro desta lógica que a revitalização do centro de São Paulo reaparece com a máscara da Nova Luz. A primeira medida governamental foi a eliminação violenta do comércio ambulante e dos prostíbulos e suas meninas. Depois veio a perseguição aos consumidores de crack, seguida da expulsão dos músicos da Rua do Samba, evento mensal que reunia cerca de 3 mil pessoas na rua General Osório (rua que é tradicionalmente um reduto do samba e do choro de São Paulo). Ao lado de onde acontecia o evento instalou-se a “Escola de Música do Estado Tom Jobim”, voltada não para o “samba”, mas para uma música de “nível”! O nome de Tom Jobim é apropriado neste contexto como signo da exclusão: na rua de choro e do samba paulista colocaremos uma escola que representa uma Cultura com “C maiúsculo”, parte integrante do elitizado corredor cultural formado pela Sala São Paulo, Pinacoteca, escola de dança do Estado (ainda em construção), Museu da Língua Portuguesa e, sintomaticamente, o “Museu da resistência” no antigo Deops. Como se a memória dos anos de chumbo não se fizesse presente em frente ao prédio, nas táticas militares de combate aos viciados, aos sambistas, ao comércio ambulante, às crianças pobres e às prostitutas da Boca do Lixo.

O que está presente na limpeza militarizada do centro de São Paulo são os espectros sinistros do delegado Sérgio Fleury, Wilson Richetti e Romeu Tuma. É a continuidade da lógica de massacres e humilhações e de apagamento da memória dos resistentes. Mais do que isso, a limpeza simbólica da cultura do samba na General Osório, mostra o sentido primeiro dos projetos de higienzação – a eugenização do centro.

Rebatismo simbólico para que um fato não se repita

Neste contexto, o rebatismo simbólico da “Escola de Música do Estado Tom Jobim” para “Escola livre de Música Pato N’Água” tem um significado que vai muito além de uma opção musical. Significa resistir à ditadura simbólica da higienização/eugenização bossa nova ao som de um negro partido alto. Significa colorir de preto a claridade da nova luz. É tornar Jobim Antonio Carlos brasileiro. É fazer como fez Glauber no enterro de Di Cavalcanti e sacudir a poeira da institucionalização da obra do grande artista disfarçada em homenagem. E acima de tudo, rebatizar a escola é recuperar a alma do samba sempre presente na Boca do Lixo, valorizar a cultura daquele local, e levar para frente do Deops do delegado Fleury a imagem de uma de suas primeiras vítimas: o sambista Pato N’água. Os bossa-novistas que nos perdoem, mas memória é fundamental. Rebatizar simbolicamente aquilo que nos oprime não é um ato de violência contra os patrimônios culturais, mas é dar voz à imaginação política que encontra na vala de sua luta os milhares de Patos N´águas, morto pelo fato de existir como aquilo que sempre ofendeu as elites: negro, pobre, sambista e contestador.

Coletivo Zagaia

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O Carnaval dos Cordões – Plínio Marcos

Publicado na Folha de S.Paulo, domingo, 13 de fevereiro de 1977

A tradição canavalesca de São Paulo era o cordão. Havia algumas escolas de samba, porém (e sempre tem um porém), os bambas, a pesada eram os cordões. Camisa Verde e Branco (branço mesmo), Vai-Vai, Paulistano da Glória, Campos Elíseos, Som de Cristal eram todos famosos cordões. E o cordão paulista tinha batida diferente das escolas de samba, tinha outras figuras e outras mumunhas. Eu disse “tinha”. Porque, que eu saiba, não existe mais nenhum cordão em São Paulo. Os que não acabaram de vez se transformaram em escolas de samba. Como é o caso do Vai-Vai e do Camisa Verde e Branco, que foram os que mais resistiram, antes de se transformarem em escolas de samba. E o fim dos cordões, sem dúvida nenhuma, se deve ao elitismo, ao paternismo das autoridades que, quando resolvem incrementar algumas manifestações espontaneas do povo, mesmo quando estão bem intencionadas, só atrapalham. Isso porque as autoridades, sempre tão distantes das bases, tomam suas medidas dentro dos gabinetes, escutando acessores que geralmente se preocupam com o brilhareco que resulte em algum lucro e nunca nos interesses da coletividade.

No caso do samba de São Paulo, não deu outra coisa. O Prefeito Faria Lima resolveu, com a melhor das intenções, oficializar o Carnaval de São Paulo. Mas deve ter consultado gente que sempre achou que nesta cidade não havia samba, nem sambistas. E essa gente, sem vacilar, desconhecendo totalmente o que é Carnaval, desconhecendo que carnaval não se resume apenas em desfiles, nem em escolas de samba, que desfile e escolas de samba são um aspecto do carnaval, que existem vários outros aspéctos que também devem ser considerados, essa gente estava interessada na cascata que podia fazer em torno da oficialização do Carnaval e não na preservação dos costumes carnavalescos do povo desta cidade. E então, sem nenhuma cerimônia, fizeram a presepada: oficializaram o Carnaval. Mas, na lei, ficou claro que o único evento carnavalesco que a Prefeitura se via obrigada a realizar era o desfile das escolas de samba. Resultado, todo incentivo da Prefeitura para as escolas de samba e nenhum para os cordões que, diante da indiferença das autoridades, foram se extinguindo ou virando escolas de samba, puxadas aos defeitos das escolas do Rio de Janeiro (é mais fácil copiar defeito que virtude) e se desvinculando totalmente das raízes culturais de São Paulo.

O samba paulista é diferente do samba baiano que se instalou no Rio de Janeiro a partir da casa das “tias”. O samba paulista é mais puxado ao batuque, ao samba de trabalho. Do toco, durão. O samba paulista vem das fazendas de café. O crioulo vindo do interior ia se instalando perto dos locais de trabalho: Jardim da Luz, Barra Funda, Largo da Banana, Praça Marechal, Alameda Glete, Bexiga, Rua Direita, Praça da Sé. E aqui, como no Rio de Janeiro, a polícia perseguia o samba e os sambistas. No Rio de Janeiro, os pagodeiros subiam o morro e a polícia se acanhava, e aí, não havia remandiola. O samba era solto, batido na mão, espalhado pelo terreiro. Aqui, o sambista se recolhia nos porões e lá puxava o samba, mas, naturalmente, não era a mesma coisa. Um samba espalhado debaixo de um céu cheio de estrelas e de luar e um samba espremido em porões, nos quais crioulo de mais de um metro e setenta tinha que mostrar o que sabia todo dobrado, pra não bater com a testa nas vigas. E quando o pagode esquentava, era tanta poeira que subia, que só era possível saber que estava havendo samba pelo ronco da cuíca e pelo gemido do cavaquinho, porque ver, não se via ninguém.

São muitos os grandes sambistas de São Paulo: Vassourinha (Olha aí, carnavalescos de escolas de samba, que andam com mania de enredo com vida de artista: esse foi gente grande e de muita embaixada no rádio), Dionísio Camisa Verde, Marmelada, Jamburá, Feijó, Pato Nágua, Sinval, Inocêncio Mulata, Carlão do Peruche, Nenê da Vila Matilde, Pé Rachado, Zézinho do Morro da Casa Verde, Geraldão da Barra Funda, Chiclete, Zeca da Casa Verde, Toniquinho, Nego Braço, Zoinho, Dona Eunice, Sinhá, Donata, Tudo gente que mantinha o samba na rua na época em que a polícia acabava samba na base do chanfralho. Tudo gente de valor provado no meio das batalhas. Tudo gente que saía nos cordões pelo prazer de sair, por gostar de samba, por querer sambar. No centro da cidade, muitas vezes, um cordão que ía encontrava um cordão que vinha. Então, era coisa pra valente. Ninguém recuava. Os cordões se cruzavam. Tinha um ritual todo cheio de parangolé. O baliza de pau de um cordão protegia a porta-estandarte do outro cordão. Os estandartes (ou bandeiras) eram trocados com muita gentileza e muito respeito. Depois de um tempo, se destrocavam os estandartes (ou bandeiras) e aí o pau comia. Navalha, tamanco, porrete entravam na fita pra bagunçar o pagode.

Pato N´Água foi levar uma cabrochinha lá pras bandas de Suzano. Amanheceu boiando numa lagoa, comido de peixe e de bala. Dizem que foi a primeira vítima do Esquadrão da Morte. Ninguém sabe direito. Defunto não fala. O que se sabe é que a notícia chegou no Bexiga à tardinha, na hora da Ave-Maria, e logo correu pelos estreitos, escamosos e esquisitos caminhos do roçado do bom Deus. E por todas as quebradas do mundaréu, desde onde o vento encosta o lixo e as pragas botam os ovos, o povão chorou a morte do sambista Pato Nágua. E o Geraldão da Barra Funda, legítimo poeta do povo, chorou por todos num bonito samba chamado Silêncio no Bexiga.

O Largo da Banana era o lugar onde os caminhões que vinham do interior encostavam pra descarregar. Ali se juntava a curriola. Enquanto não vinha caminhão se armava o samba duro. Se jogava a tiririca:

É tumba, moleque, é tumba
é tumba pra derrubar
tiririca, faca de ponta
capoeira vai te pegar
Dona Rita do Tabuleiro
quem derrubou meu companheiro
Abre a roda, minha gente
que comigo é diferente

E só parava na roda quem se garantia. E o Inocêncio Mulata (hoje presidente do Camisa Verde e Branco da Barra Funda) sabia tudo. Tudo e mais alguma coisa. E no Carnaval, puxava no surdão um famoso trio de couro. Ele no surdão, o Feijó na caixa de guerra e o Zoinha no tamborim. Paravam num boteco qualquer e começavam a zoar. Ia juntando gente, juntando gente e aí o rio saía pela Barra Funda, com uns duzentos sambando atrás. Na Praça Marechal, já eram dois mil, na Glete, cinco mil. Aí, era zorra, zorra total, até a polícia chegar. Foi nesse trio de couro que o Inocêncio ganhou o apelido de Mulata. Logo ele, que não é de fazer careta pra cego, resolveu aprontar pro Feijó, que não podia ver rabo de saia. O Inocêncio pegou um vestido da Dona Sinhá, meteu um turbante, se embonecou e ficou na moita. O Feijó e o Zoinha, que estavam no boteco esperando o companheiro de trio, foram tomando todas. Quando já estavam bem bebuns, e achando que o Inocêncio não viria mais, ele se apresentou vestido de mulher. Fez sucesso pro Feijó, que achou aquilo uma tremenda mulata e foi logo pagando cerveja. Mais encantado ainda ficou o Feijó quando aquela mulata pegou no surdo e mandou ver. O trio saiu. O Feijó todo preocupado com a mulata e alimentando ela com cerveja até a Glete. Aí, o Feijó resolveu partir com tudo. Se entortou. O Inocêncio tirou o turbante e se apresentou. O patuá do Feijó entortou. Mas o Inocêncio ganhou pra sempre o apelido de Mulata.

Mas a guerra se avacalhou. Não existe mais trio de couro, nem bloco de sujo, nem vai-quem-quer. Essas manifestações espontâneas do povo, que sempre a polícia tentou acabar sem conseguir, acabaram graças às promoções carnavalescas da Prefeitura. No lugar dessas coisas todas, a Prefeitura meteu o Trio Elétrico. A própria poluição sonora, que com guitarras elétricas e grandes aparelhos de som, esmagam, apagam qualquer instrumento de couro batido por um sambista. Alguns músicos defendem essa jeringonça como mercado de trabalho, mas esquecem que um toca-fitas e uma Kombi fazem o mesmo efeito que esse trio elétrico. E esquecem que falta mercado de trabalho porque muitos bailes de Carnaval em São Paulo são animados por toca-fitas e que a própria Prefeitura promove um bailão pra quarenta mil pessoas, com toca-fitas.

São Paulo sempre teve muito carnaval. Mas hoje está tudo resumido no desfile das escolas de samba e nos bailes dos clubes. E isso tudo é muito triste. Porque o Carnaval sempre serviu pras manifestações espontâneas do povo. E tudo agora vai se resumindo num espetáculo pra atrair turista. Feito no gosto dos turistas e avaliado pelos padrões culturais das elites. E isso dói. Porque um povo que não ama e não preserva suas formas de expressão mais autênticas jamais será um povo livre.

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