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Cordão da Mentira 2016 – 10 Anos dos Crimes de Maio

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O Cordão da Mentira sairá este ano em maio relembrando os 10 anos dos Crimes de Maio, quando o Estado de São Paulo usou seu braço armado para massacrar civis nas periferias de São Paulo. Foram mais de 500 mortes de jovens periféricos em apenas duas semanas. Uma retaliação covarde da polícia aos ataques do PCC. Este que foi o maior massacre do período dito democrático no Brasil jamais foi investigado com seriedade. Pelo contrário, o Estado de São Paulo e seu ministério público arquivaram a maioria dos casos e impediram uma contagem precisa dos mortos. O Governo Federal por sua vez negou-se a federalizar as investigações.
Aos mortos das periferias de São Paulo não se dá o direito de justiça e verdade.
Por isso neste ano homenagearemos as guerreiras Mães de Maio, movimento de familiares de vítimas do Estado que exigem uma resposta do Estado pelos seus crimes e a desmilitarização da polícia.
Com certeza de impunidade a polícia segue matando indiscriminadamente jovens periféricos, em sua maioria negros, destruindo famílias, apagando sonhos, deixando dezenas de crianças órfãs de seus pais assassinados ano após ano, aumentando cada vez mais a miséria e revolta da população que oprime.
Vamos para as ruas escrachar o aparelho repressivo do Estado, o governador Alckmin, principal responsável pelos crimes da polícia paulistana e o judiciário que assiste calado às reiteradas chacinas nas periferias. Lembrar as muitas chacinas que o Estado brasileiro impõe as populações pobres, indígenas, camponesas, quilombolas, periféricas. Os nossos mortos tem voz!

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viva méxico - victor Flynn
Victor Flynn, autor do blog nos mandou essa ajuda artística revolucionária. Venha você também ajudar o cordão.

Condenados da Terra

Cordão da Mentira 2015 – Condenados da Terra

 

Companheiros e companheiras,

É chegada a hora de mais um desfil&scracho. Primeiro de Abril, dia da mentira, dia de nossa luta. O Cordão da Mentira sairá às ruas com o tema Condenados da Terra. Na mentira do nosso cotidiano enterraram nossa memória e, com ela, os povos indígenas, negros e imigrantes; os corpos femininos, transexuais; a vida operária, sem-terra, sem-teto. Lembrar é dar voz e o trajeto de nosso Cordão promete traçar o passado destes condenados.

Personagens de uma mesma história sangram no pacto de luta contra uma ordem cada vez mais fascista. Em nome do desenvolvimento, se massacra; em nome da lei, se encarcera; em nome da cultura, se vende.

O Cordão volta às ruas para mostrar que não compactua com isso. Contra o mimimi fascista, a batucada do samba. Contra a governança desmedida, a memória de luta.

E que o Cordão seja o espaço de luta de vários guerreiros e guerreiras. Que venham as lutas indígenas! Que venha a libertação negra! Que venha a Pátria Grande e sua gente! Que venham os corpos livres! Ocupemos a cidade para transformar seus territórios!

No ano de 2015, convidamos a criatividade de vocês no trajeto do Cordão. Organizem suas alas! Façamos nossa trincheira contra a Mentira da História. Ouçamos as vozes dos condenados e condenadas da terra que ainda clamam por justiça, verdade e mudança num beco silencioso das ruas do Centro!

O cordão tem o seu espírito calcado na roda de samba, no seu rito, nas suas composições e na sua verdade. Verdade de um povo que canta contra a opressão. Contamos com todos os coletivos, militantes e artistas parceiros para mais uma vez construirmos nosso Cordão com paixão e com verdade.

As ruas são para lutar!

Cordão da Mentira

Há 50 anos, o golpe civil-militar… o aniversário é deles, mas a rua é nossa!

Após dois anos do nosso primeiro desfile, o cordão volta às ruas.

Desta vez, há exatos 50 anos golpe civil-militar de 1964. Apesar de alguns esforços valiosos, nenhum responsável foi julgado pelos crimes cometidos. E foram muitos: torturas, extorsões, sequestros, assassinatos em massa de indígenas e camponeses, desaparecimentos perpetrados pelo Estado e pelos tentáculos econômicos do capitalismo.

Brasil maravilha, dos “90 milhões em ação” na grande festa popular que é o futebol. Cinquenta anos se passaram, e pouco deste cenário antigo mudou. 2014: Ano de Copa e violência repressiva. Eis o que nos aguarda nas ruas, violadas pelas novas leis de exceção padrão FIFA.

Se for para comemorar, que seja pelos que combateram e combatem contra um passado que não cansa de se repetir. E carnavalizemos… festa que inverte os sinais.

Por isso, neste 01 de abril, o Cordão da Mentira cantará o passado e o presente que vale a pena: da teimosia dxs guerreirxs, dxs indignadxs, dxs irreconciliáveis. Levaremos para as ruas os sambas-luta, as alegorias da história, os estandartes dos que dizem “Não!”.

O ANIVERSÁRIO É DELES, MAS A RUA É NOSSA!

Retorno do Cordão da Mentira

Tá chegando a primeira roda do Cordão da Mentira para o destile de 2014! 64+50 anos do golpe civil-militar. Vamos batucar contra os 50 anos de militarização da vida e da política! É neste domingo!

Quando daremos o golpe no Golpe?

 

Local: ECLA: Espaço Cultural Latino Americano

Rua da Abolição, 244.

Bixiga

 

Horário: a partir das 17 horas

 

 

2º Desfile: Quando vai acabar o genocídio popular?

CORDÃO DA MENTIRA ESTÁ DE VOLTA! ou AS RUAS SÃO PARA LUTAR! (e quem não luta, dança).

O Cordão sairá às ruas no dia 29 de setembro (sábado) com o tema “Quando vai acabar o Genocídio Popular?”. A concentração é a partir das 11h, no Largo General Osório, onde terminamos o desfile passado.

O Cordão da Mentira é um bloco carnavalesco de intervenção estética que, de modo bem humorado e radical, versa e canta sobre temas cruciais para uma real transformação da sociedade brasileira. O nosso primeiro desfile teve como tema “Quando vai acabar a ditadura civil militar?” e juntou cerca de mil pessoas no 1o de abril, dia do golpe militar e dia da mentira.

O tema de nosso próximo desfile será “Quando irá acabar o genocídio popular?” O tema dispensa justificativas. Em meio à uma nova onda de chacinas na periferia paulistana, poucos meses após a barbárie de Pinheirinho, nos vemos instigados a responder estética e politicamente ao fascismo de Estado em que vivemos. Coincidentemente ou não, desfilaremos proximamente ao infeliz aniversário dos 20 anos do massacre do Carandiru.

Cantaremos nas ruas aos despejados, aos humilhados, aos encarcerados, aos massacrados, aos chacinados. Aos jovens que não tiveram chance, aos que, para a “sociedade” paulistana, valem menos do que a bala que os mata.
O Cordão vai tomar as ruas de novo! Venham fantasiados! Com o som de nosso batuquejê cantaremos à tranformação! AS RUAS SÃO PARA LUTAR! (e quem não luta, dança).

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Cordão da Mentira: de volta às ruas para lutar

Ver post no site original

Através de entrevista e imagens do desfile do primeiro semestre, o vídeo apresenta a proposta política e estética do Cordão da Mentira, que volta às ruas de São Paulo no próximo 29 de setembro com o tema “Quando vai acabar o genocídio popular?”. Por Passa Palavra

 

Thiago Mendonça, Selito SD e Silvio Carneiro falam das motivações que animaram a formação do Cordão da Mentira e os desafios que envolvem a tentativa de consolidar um espaço que, ao atuar com ênfase no campo simbólico, não se deixe levar pelos clichês ou pela abordagem instrumental com que a esquerda vem tratando a questão nos últimos tempos. Por outro lado, falam da necessidade de se traçar uma linha divisória que não permita que iniciativas como esta sejam confundidas com outras recentes, que, apesar de também bradarem pela urgência de tomada das ruas, não mantêm compromissos com as causas populares. Daí o lema deste segundo desfile: “As ruas são para lutar! E quem não luta dança.” A esse respeito, eles ainda descrevem um pouco como acontece o processo criativo, que vai  desde a escolha dos temas, as composições, as parcerias com coletivos que fazem uso de diferentes linguagens, os ensaios, até o trajeto do desfile.

Acessar vídeo da entrevista no Vimeo

 

 

Sem orçamento e com comando militar, subprefeituras em São Paulo são desmanteladas

Por: Estevan Muniz, da Rede Brasil Atual

As subprefeituras de São Paulo sofreram um desmantelamento nos últimos oito anos, durante a gestão de José Serra (PSDB) e Gilberto Kassab (PSD). Segundo apuração feita pela Rede Brasil Atual, nesse período o orçamento anual do Poder Executivo municipal de São Paulo teve um aumento de 154,83%, passando de R$ 15,2 bilhões, em 2005, para R$ 38,7 bilhões, em 2012, mas os orçamentos das subprefeituras somados tiveram uma queda de 61%, indo de R$ 2,9 bilhões para pouco mais de R$ 1 bilhão. Transformadas em espécies de zeladorias, as subprefeituras perderam atribuições, ao passo que a Secretaria de Coordenação das Subprefeituras ganhou peso e 516% de aumento em sua cota na distribuição das verbas públicas.

“A Secretaria de Coordenação de Subprefeitras concentra hoje grande poder. A ideia de Kassab é ter grandes ações na cidade, grandes intervenções, que não sejam compartilhads com a regiões. É um movimento de concentração de poder”, afirma o cientista político Francisco Fonseca, professor da Fundação Getúlio Vargas. Ele vê essa centralização de poder como contrária à participação popular. “Quanto mais você descentraliza, mais espaço há para participação popular. As grandes cidades da América Latina vivem um processo de descentralização. E o governo Kassab está na contramão disso. Aquilo que era um embrião importante, as subprefeituras, ele conseguiu desmantelar”, diz.

Hoje, das 31 subprefeituras que existem na cidade, 30 são geridas por coronéis da reserva da Polícia Militar. Eles passaram a ocupar esses postos na gestão de Kassab, em 2009, quando as subprefeituras já haviam perdido boa parte de sua verba e de suas atribuições, durante os primeiros anos de sua gestão e do meio mandato de Serra. Os coronéis e Beto Mendes – único subprefeito civil, que administra a subprefeitura de M’Boi Mirim –, limitam-se a executar nos bairros as ordens que vêm da prefeitura e de suas secretarias. Segundo Francisco Fonseca, a nomeação de coronéis foi um jogo de marketing político. “Pra dar uma áurea de que as subprefeituras funcionam, ele nomeou os coronéis aposentados, mas é um jogo equivocado, porque eles não têm nenhuma relação com planejamento urbano, urbanismo ou com problemas sociais”.

Criadas em 2002 pela então prefeita, Marta Suplicy (PT), as subprefeituras tinham outra função que a aplicada por Kassab, de acordo com a lei municpal que as estabeleceu. Entre seus objetivos estavam a democratização da gestão pública e o facilitamento da administração da cidade, que, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), conta com 1,5 milhão de quilômetros quadrados e 11,3 milhões de habitantes. A lei determinava que aos subprefeitos cabia a “decisão, direção, gestão e o controle dos assuntos municipais em nível local”.

De fato, a redução de recursos destinados às subprefeituras ocorreu ao mesmo tempo em que se deu a concentração deles para a Secretaria de Coordenação das Subprefeituras. Para o cientista político Eduardo Grin, que realizou uma pesquisa de mestrado na Universidade de São Paulo (USP) sobre a implantação das estruturas regionais, essa migração de verbas acampanhou uma passagem de atributos. Esse processo, segundo ele, foi uma estratégia política de Kassab. “Quanto menos áreas concentrarem recursos, mais fácil é montar os arranjos de construção de política. Em vez de ter decisões de obras segmentadas regionalmente entre as subprefeituras, o que seria uma coisa complexa, porque cada subprefeitura tem o seus interesses e as suas demandas, em vez de discutir com vários subprefeitos, ele discute só com um secretário.”

Executar projetos de alto interesse para Kassab e de pouco interesse popular tornou-se mais fácil com o desmantelamento das subprefeituras, de acordo com Grin. “É mais fácil fazer negociações centralizadas do que negociar com a região. Com projetos, como os que privatizam o espaço público, que Kassab promoveu, pode ter movimentos sociais e associações de bairro que se oponham, mas se há um processo centralizado, que oposição ele terá? Nenhuma. Sequer as pessoas da região sabem dos projetos”. Grin aponta que essa estratégia revela a visão da atual gestão de como deve ser a relação entre Estado e sociedade. “O governo Kassab entende que as decisões centralizadas são capazes de produzir efeitos positivos nas regiões. Essa é a ótica desse governo, ele é muito pouco aberto ao díalogo à participação social”, afirmou.

A entrada dos coronéis nas subprefeituras precede um ano em que há uma queda acentuada nos orçamentos das subprefeituras. Em 2009, os orçamentos somados representaram 4,22% do orçamento total do Poder Executivo, e, no ano seguinte, eles passaram a representar 3,22%. “Colocar um coronel em uma estrutura de gestão em uma região sinaliza pra população que é uma estrutura de mando, e o projeto original das subprefeituras entendia que ela seria uma estrutura de controle social participativo, com a população se envolvendo na política local. O recado que o governo Kassab dá é: a subprefeitura não é lugar de democracia”, comenta Grin. Para ele, a presença dos coronéis limita o diálogo entre a população e a gestão municipal. “Se a a formação política dos coronéis não é democrática, se historicamente eles trabalham mandando, por que eles mudariam isso nas subprefeituras? Eles vão ficar democráticos da noite pro dia?”.

Tratamento ríspido

Procurados, líderes comunitários e presidentes de associações de moradores de bairros acusam falta de diálogo com as subprefeituras que compreendem seus distritos. Rodrigo Olegário é líder comunitário no bairro Jardim Icaraí, na Brasilândia, zona norte da cidade. No início de agosto, ele foi expluso da subprefeitura da Brasilândia/Freguesia do Ó, e, na semana passada, disse ter sido ofendido por seu coordenador de Projetos e Obras, após cobrar uma informação referente à Operação Cata-Bagulho, que recolhe entulhos nos bairros periodicamente. Os moradores e a subprefeitura tinham acordado que a operação seria realizada a cada dois meses – a última vez havia sido em meados de julho, e Olegário queria saber quando ia ser a próxima.

“Muitas famílias querem respeitar o ambiente e não jogar entulho na calçada, porque tem gente que acaba jogando até em frente de escola. Perguntei à subprefeitura quando eles iam instalar as placas, indicando a existência do programa. Depois de eu ter ligado várias vezes, e vários prazos terem sido passados e estendidos, eles falaram que estavam sem verba. E o rapaz [coordenador de Projetos e Obras] falou que não vai mais me atender, nem a comunidade, que só enchemos o saco, e que está pouco se lixando com o problema”, contou. De acordo com ele, a subprefeitura não realizará a operação em setembro.

Olegário também comentou como o coordenador de Adminstração e Finanças tratou-lhe, quando ele se reunia com a assessora de imprensa da subprefeitura, para discutir um projeto de construção de um centro cultural em um espaço que sofre com esgosto a céu aberto e é ocupado pela venda de drogas. “Foi uma grosseria total. Ele estava chegando de férias. No meio da nossa conversa, disse: ‘O que esse rapaz está fazendo aqui? Some daqui, menino!’”.

Crescenza Giannocaro preside a Associação de Moradores e Amigos da Mooca há onze anos. Ela contou que raramente trata as questões dos moradores com o subprefeito da Mooca. “Não posso dizer que há uma grande abertura. O subprefeito é pouco acessível à comunidade. Os assessores são quem nos atendem e nos orientam”, disse ela. A associação enfrenta problemas relacionados ao patrimônio do bairro e sempre tem de lidar com os órgãos centrais e com vereadores, que têm base popular no bairro. “Quando não somos atendidos, somos obrigados a ir até outras autoridades e até o Ministério Público. O que sentimos é que as subprefeituras são simplesmente síndicos do local, não têm o poder realmente de assinar e levar adiante”, contou.

Em março deste ano, os moradores da Mooca se mobilizaram junto ao Ministério Público para impedir a venda de uma praça no bairro à iniciativa privada, idealizada por Kassab e aprovada na Câmara Municipal. Crescenza conta que só passou a ter essas dificuldades depois da entrada de Kassab. “Na gestão de José Serra, o subprefeito era praticamente um morador do bairro, sempre estava presente pra poder colaborar com a comunidade toda. Houve uma epóca na qual o poder de decisão do subprefeito era muito maior”.

Para Marcelo Mota, presidente da Sociedade Amigos do Itaim Bibi, a subprefeitura de Pinheiros, que compreende seu bairro, só serve atualmente para levar pedidos à prefeitura. “Sinto que nem uma zeladoria é, a subprefeitura é um posto de mal atendimento. Você reclama de problemas de manutenção, mas não sabe com quem falar, porque nunca tem ninguém aqui em Pinheiros”, contou. Segundo Mota, a associação é o canal de comunicação dos moradores com a subprefeitura. “Se o morador vai lá sozinho, fica perdido. Nem pra resolver problema de alvará o comerciante pode ir lá”. Ele desempenha funções na associação desde que foi fundada, em 1995 e comentou que as subprefeituas já foram muito mais eficientes. “A subprefeitura tinha o papel de democratizar a prefeitura, mas não faz nada disso, tanto que colocaram um monte de coronéis lá. Na época da Marta, a subprefeitura que tínhamos era extremamente esforçada e resolvia nossos problemas cotidianos”, comentou.

O começo do desmonte

O processo de desmantelamento das subprefeituras teve início na gestão de Serra. A maior queda de orçamento se dá na passagem de 2005 para 2006. Naquele ano, os orçamentos das 31 subprefeituras somados representavam 19,44% do orçamento total do Executivo do município, e, neste último, passaram a representar 3,28%. Em 2005, Serra já era prefeito, mas trabalhava com o orçamento aprovado em 2004, pela gestão anterior, de Marta. “Quando Serra assumiu, ele produziu decretos de recentralização, retirando serviços das subprefeituras. Assim como a Marta decretou, repassando incumbências de várias secretarias para elas, ele foi firmando decretos retirando as atribuições e devolvendo-as para as secretarias. Minguadas as incubências, o efeito disso foi financeiro”, disse Grin.

Ele comentou que se tratava de uma decisão política de Serra, que discordava da indicação de subprefeitos por vereadores que Marta gerenciava. “O Serra tinha um compromisso público com a sociedade paulistana em relação às subprefeituras. Durante a campanha, ele bateu forte no governo, falando que ele tinha transformado aquilo em cabide de emprego pra vereadores”. Grin contou que, em vez de indicar vereadores e pessoas ligadas a eles, Serra passou a nomear às subprefeituras candidatos derrotados de prefeituras de outras cidades do estado,. “Ex-prefeitos das cidades de SP não têm base eleitoral nas regiões e não têm interesse em se eleger nelas. Qual é o recado que Serra deu? Vereador até pode ter uma influência na região, mas não indica mais subprefeito”.

As subprefeituras foram criadas para substituir as administrações regionais, após a cidade ter sofrido uma crise de corrupção que envolvia várias delas, durante a gestão de Celso Pitta (1997-2000), com a “Máfia dos Fisicais”. Desde 1965, durante a prefeitura de Faria Lima (da então Arena, partido de sustentação da ditadura), o município era dividido por essas administrações, e as subprefeituras foram instaladas para substituí-las. “No final da década de 1990, as subprefeituras passaram a ser vistas como a única alternativa possível de romper com a crise política, moral e administrativa das regionais, e todos os candidatos de oposição a Pitta eram a favor delas”.

Mas o estudo de Grin indica que o projeto de Marta das subprefeituras não interrompeu a troca de favores entre vereadores e prefeitos, que ocorria por meio das administrações regionais. “Os territórios na cidade de São Paulo, esta cidade-nação, cuja dimensão é maior que vários países europeus, foram historicamente recursos políticos muito significativos pra construir lideranças políticas locais e para os prefeitos constituírem as suas bases de apoio na Câmara Municipal. Eles atendiam às demandas de vereadores em determinadas regiões, em troca do apoio que tais parlamentares poderiam oferecer às políticas dos prefeitos na Câmara”, ele contou.

Segundo Grin, as subprefeituras falharam em romper com essa lógica. “O governo de Marta, para ter maioria de votos na câmara, transformou as subprefeituras em um recurso político pra constituir a sua coalizão majoritária no parlamento”. Grin disse que no princípio dessa gestão, o governo se deu conta que não conseguiria aprovar o projeto de subprefeituras, porque não tinha votos suficientes na câmara e que corria o risco de passar o resto do mandato sem uma base de apoio de vereadores, assim como havia ocorrido com Luiza Erundina, no início da década de 1990. “Pra aprovar o projeto, foi necessário construir acordos com os vereadores. O projeto, então, nasceu limitado, mantendo exatamente aquilo queria negar no início: a presença dos vereadores no território, pra garantir uma gestão técnica, que prestasse serviço de qualidade”.

Mas, de acordo com ele, a atual prefeitura tampouco alterou a lógica de troca favores. “Com os coronéis nas subprefeituras, ele não negocia territórios, nem subprefeituras – está fora do pacote de bondades dele. No entanto, Kassab inverteu esse mecanismo e criou um substitutivo. Ele trocou a moeda de barganha, passando a oferecer aos vereadores um montante, para cada um deles fazer emendas no orçamento. Com um novo modelo, constrói sua base sólida e aprova todos seus projetos. Isso em parte responde ao interesses dos vereadores, mas nem de longe os satisfaz”.

A quem serve negar o impacto PCC?

Originalmente publicado no site Caros Amigos

Por Daniel Hirata, Adalton Marques, Gabriel Feltran e Karina Biondi

 

As taxas de homicídios são atualmente o grande parâmetro de avaliação das políticas de segurança em todo o mundo. Assim como a cotação do dólar e a taxa de juros para a política monetária, as flutuações das taxas de homicídios vêm sendo parâmetro de avaliação da gestão pública: cidades que conseguem reduções expressivas são vistas como modelos de ”boas práticas” a replicar. São Paulo foi incluída recentemente, no relatório de 2011 do Onudoc (United Nations Office on Drugs and Crime), como um ‘case’ na redução da taxa de homicídios em comparação com outras cidades latino americanas e brasileiras. Ao ser citada em um relatório desse tipo, sobretudo com uma redução que posiciona a cidade abaixo da linha imaginária do que é considerado um índice “epidêmico”, as políticas governamentais de segurança ganham enorme respaldo nacional e internacional.

Crédito Eleitoral

Sabe-se bem como esse ganho foi capitalizado rapidamente pelo governo paulista durante a última década. Contudo, esse crédito eleitoral e, acima de tudo, político-administrativo, não foi usufruído sem que, bem longe das razões governamentais, se constituísse um lastro que sustenta outra história acerca da redução das taxas de homicídios.

 

Nossas pesquisas voltaram os olhos precisamente para esta versão, levando a sério aquilo que se insiste em considerar anômico: o que dizem presos e moradores das periferias de São Paulo sobre a violência, a segurança e os homicídios. Nessa mesma direção, desde 2005, temos registrado entre eles relatos da política de “paz” do PCC (Primeiro Comando da Capital) em prisões e “quebradas”, e a importância dos seus “debates” na redução dos homicídios por ali. Sabe-se que, nesses territórios, desde a primeira metade dos anos 2000, “não se pode mais matar” sem o aval do “Comando”.

A emergência dessa forma de regulação torna complexa a deslegitimação da “segurança pública” nas periferias, onde a repressão é sua única face: seja pela política de encarceramento em massa, pela militarização da gestão pública ou pelos achaques a que seus moradores são constantemente submetidos. O impacto dessas políticas nas estatísticas é evidente, embora silenciado ativamente e sistematicamente por governos e imprensa e rejeitado por ‘think tanks’ que disputam o tema segurança pública, assim como fora praticamente desconsiderado em nossas universidades há poucos anos.

Fator PCC

Há uma razoável concordância entre os especialistas de que a violência e o homicídio são fenômenos históricos e multidimensionais. Nesse sentido, é claro que o PCC não é a única causa dessa redução. Mas digamos francamente: é um absurdo fingir que o PCC não é central para compreender esse fenômeno. Em São Paulo, há muito mais mistérios por detrás da redução dos homicídios do que supõe nossa vã criminologia. Mas, principalmente, há muito mais evidências ofuscadas sob o holofote das suposições.

Afirmamos, portanto, que os sucessivos governos do PSDB em São Paulo não são os únicos fiadores da redução da taxa de homicídios no Estado, nem mesmo os majoritários. E, ao invés de atribuirmos a fiança majoritária ao PCC, preferimos falar de sua centralidade, da importância inegável de sua política de “paz entre os ladrões” para a queda dos homicídios em São Paulo.

Etnografia

Nossa aferição não é sociométrica; antes, se trata de uma problematização etnográfica. Além do que, sabe-se que os critérios de construção dessas medidas são polêmicos e cheios de controvérsias. No Rio de Janeiro, por exemplo, onde esse tipo de controvérsia emerge de forma mais visível publicamente, uma pesquisa recente do Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana (NECVU) sobre os “autos de resistência” problematiza a leitura fácil sobre as taxas de homicídio justamente quando volta a atenção para onde os olhos dos governos insistem em não olhar: a atuação das polícias.

 

Ao largo das condecorações fáceis dos responsáveis pela miraculosa queda dos homicídios, preferimos seguir os rastros das “guerras” (categoria usada por “ladrões” e por policiais) que continuam a aterrorizar a periferia – ainda que suas manifestações mais espetaculares tenham se tornado cíclicas. É notório em nossas pesquisas que parte das dinâmicas que produzem mortes na cidade estão relacionadas aos jogos de poder entre coletivos criminais e corporações policiais, em suas atividades oficiais e extra oficiais. A atual intensificação do caráter repressivo e militar das políticas de segurança não apenas acentua a “lógica da guerra” no controle oficial do crime, como também aumenta os custos e os conflitos operantes nos mercados extra oficiais de proteção, cujos desfechos letais são muito frequentes no cotidiano dos alvos preferenciais desse controle.

Equilíbrios Instáveis

Neste momento, ao contrário do discurso oficial que insiste em negar a existência do PCC e exibe a polícia de São Paulo como a mais eficaz do Brasil, a cidade presencia diversos assassinatos em todas as regiões da Grande São Paulo. O fato é que tanto a atuação do PCC como a das polícias são feitas a partir de equilíbrios instáveis, construídos pelas suas heterogeneidades internas e pelas relações entre ambos. Quando algo desestabiliza esse encadeamento sensível os acordos se rompem e os ciclos de mortes são detonados sem que nem mesmo seus participantes consigam identificar os autores: guerras estancadas começam a correr subterraneamente, acertos adiados passam a acontecer entre grupos com interesses conflitantes sem declaração aberta, acordos são suspensos secretamente, de modo que sempre é possível culpar o “outro lado” pela morte que não se pode nomear o autor nem as razões.

Enquanto não escancararmos com pesquisa rigorosa a caixa de pandora dessas relações para ao menos dar início ao debate, continuaremos sem qualquer resposta pública, digna, para as dezenas de assassinatos que voltaram a marcar a Grande São Paulo, bem como sem uma explicação satisfatória que correlacione a política de “pacificação” do PCC com os surtos de combate entre Estado e crime.


Daniel Hirata é pesquisador do Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana (NECVU) da UFRJ; Adalton Marques é doutorando do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFSCar (PPGAS-UFSCar); Gabriel Feltran é sociólogo, docente da UFSCar e membro do Centro de Estudos da Metrópole (CEM) da universidade e Karina Biondi é doutoranda do PPGAS-UFSCar